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Conteúdo 3 de junho de 2018

Afinal, os caminhoneiros trouxeram mesmo caos ao país?

Impossível hoje não tratar de um assunto da maior importância que vem trazendo tanto desconforto aos brasileiros: Os protestos nas rodovias do Brasil. As principais pautas vão desde a redução do preço do combustível até a diminuição da carga tributária, da isenção da cobrança por eixo suspenso até a oferta de um frete justo que possibilite ao caminhoneiro, principalmente ao autônomo, dar manutenção básica no equipamento – Algo que se tornou impossível para muitos.

Não se pode deixar de lado as consequências de uma malha rodoviária deficiente, que por um lado falta qualidade, manutenção, investimentos e segurança na maioria dos trechos, por outro arca-se com custos de concessões para tê-las em bom estado. Isso vêm pesando bastante no bolso dos usuários, principalmente dos caminhoneiros e das transportadoras. É importante sabermos que, como consumidores, pagamos a conta de ambos os lados.

Quem trabalha na área de logística sabe de duas coisas básicas: da dificuldade crescente que o setor atravessa, seja por uma política de preços equivocada, por uma carga tributária insuportável ou por uma infraestrutura insuficiente e ineficaz; e sabe também que o que estamos vivendo nos últimos dias estava evidente, pois a coisa toda chegou a um grau de sufocamento do setor que os trabalhadores não tinham como evitar o estouro dessa bomba-relógio.

Ao imaginarmos o tráfego em rodovias esburacadas, com assaltos, extorsões, sem descanso, pois os pontos de apoio previstos na Lei 13.103/2015 (uma reedição da Lei 12.619/2012) e outros artigos não saíram do papel, com um frete impraticável na maioria das vezes, altos impostos, com um preço de combustível que impossibilita despesas com pneus e manutenção, não é nenhuma surpresa que tal grito de socorro não tenha podido se calar por um pouco mais de tempo.

Apesar de hoje entendermos que somos dependentes de caminhoneiros, pois 2/3 das cargas do país passam por rodovias (2/3 destas são classificadas como ruim ou péssimas), e de termos visto essas manifestações paralisarem setores importantes pelo efeito do desabastecimento, elas apenas expuseram as situações já caóticas da nossa política, da nossa saúde e de nossa infraestrutura logística, pois todos os dias do ano percebemos a incapacidade das gestões públicas em lidar com conflitos, ambulâncias não circularem por falta de manutenção e de combustível, cirurgias serem desmarcadas por falta de insumos, falta de remédios e de ações de uma política pública que zele pelos direitos dos cidadãos. Por mais importante que seja o setor rodoviário para o Brasil, a “pólvora” já estava lá e os impactos se mostraram mais atrelados à rotina do que ao eventual.

E por que estamos tão nas mãos do setor rodoviário? Ora, os últimos investimentos em ferrovias de que se tem notícia estão travados devido à burocracia nossa de cada dia e de suspeitas de formação de cartel. A Confederação Nacional do Transporte (CNT) aponta necessidade de investimentos de R$ 281bi para adequar o setor ferroviário às necessidades do país tornando o frete mais barato e menos dependente de rodovias. Os últimos investimentos públicos levantados em 2016, dão conta de apenas R$ 1bi. Falar das hidrovias então… E dos portos? A verdade é que ano após ano os investimentos em infraestrutura logística caem significativamente, inclusive no setor em que o país é mais dependente, revelando um contrassenso inexplicável – Confesso que a cada dia fica mais difícil falar sobre logística e política sem ser tão repetitivo.

Contudo, chamo atenção para um ponto muito evidente que ficou dessa situação: Como somos dependentes de combustíveis fósseis! Que visões aterradoras vimos nos postos de combustíveis! Já parou para pensar no quanto consumimos dessa fonte de energia não renovável? Especialistas afirmam que as reservas mundiais alcançaram seu pico em 2015. Mais de 600 entidades mundiais iniciaram desinvestimentos na área e buscam transição total para fontes limpas e renováveis até 2050. Parece muito tempo, mas se o Brasil mantiver o tratamento com as questões logísticas da forma que vem fazendo entrará em colapso e não só devido à exploração de suas reservas, como também por estar na contramão do mundo. Já não seria bom pensarmos nisso agora?

Marcos Aurélio da Costa Marcos Aurélio da Costa

Foi coordenador de Logística na Têxtil COTECE S.A.; Responsável pela Distribuição Logística Norte/Nordeste da Ipiranga Asfaltos; hoje é Consultor na CAP Logística em Asfaltos e Pavimentos (em SP) que, dentre outras atividades, faz pesquisa mercadológica e mapeamento de demanda no Nordeste para grande empresa do ramo; ministra palestras sobre Logística e Mercado de Trabalho.

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