Josef Zech, ex-diretor da Panalpina, fala sobre a evolução da logÃstica mundial e os obstáculos no Brasil
Notícia | 14 de Fevereiro de 2012
O ex-diretor-geral da empresa no Mercosul explica como a logística se tornou essencial para os negócios no país e o que ainda precisa ser feito para que se chegue à excelência nas atividades.
A Panalpina (Fone: 11 2165.5500) se despediu, em outubro último, de um de seus grandes profissionais de carreira, Josef Zech, ex-diretor-geral no Mercosul e que atuou por 40 anos na empresa.
A presidente global e CEO da Panalpina, Monika Ribar, veio da Suíça especialmente para a despedida de Zech e fez um discurso emocionado sobre o diretor. “Quando a Panalpina veio para o Brasil, tínhamos muitos desafios a serem superados. E o Zech foi muito importante para que atingíssemos o sucesso no país. Ele sempre carregou consigo a essência da Panalpina”, disse.
Com toda a experiência que adquiriu em 40 anos de empresa, 25 deles apenas no Brasil, Zech acompanhou a evolução da logística brasileira de perto. Desde a assimilação do termo logística até investimentos pesados em infraestrutura, tudo foi acompanhado pelo executivo. Essa bagagem de conhecimento fez com que a Logweb realizasse uma entrevista exclusiva com Zech, agora aposentado, buscando um olhar especialista e aprofundado sobre todo o desenvolvimento do segmento nas últimas décadas, desde o interesse empresarial sobre o setor até os problemas de infraestrutura ainda presentes no Brasil.
Logweb: Como era trabalhada a logística 40 anos atrás, de modo geral, quando o senhor entrou para a equipe da Panalpina?
Zech: Na realidade, há 40 anos não existia o termo logística. Havia, sim, empresas especializadas em transportes internacionais que se subdividiam em transporte marítimo, terrestre, aéreo, etc. Também não existia a informática, o computador. Tudo era mais lento e complicado. Os barcos demoravam muito para chegar a seu destino, os aviões eram menores, o fluxo dos documentos entre origem e destino era muito mais lento e complexo.
Logweb: Como se deu a evolução da logística ao longo desses 40 anos?
Zech: A globalização foi a responsável por toda a evolução da logística no mundo. Antes, as empresas procuravam produzir seus produtos nas mesmas regiões em que eram comercializados e consumidos. Por exemplo, uma fábrica que produzia na Europa, colocava seus produtos no próprio mercado europeu. Com o aumento da concorrência e a necessidade de produzir com preços mais baixos e, portanto, mais competitivos, as empresas passaram a buscar novas áreas, com custos de produção mais baixos. A América Latina e, principalmente, a Ásia se tornaram polos de suprimentos e mão-de-obra. Essa globalização fez crescer não somente a logística no mundo, como provocou o desenvolvimento e aperfeiçoamento das empresas de logística.
Logweb: Quais as principais diferenças entre a logística desenvolvida há 40 anos e agora?
Zech: No meu ponto de vista existem dois fatores decisivos que mudaram e desenvolveram totalmente a logística. Primeiro, a tecnologia. Hoje, todos os processos são informatizados, portanto, mais ágeis, mais controlados, dando ao cliente a possibilidade de se manter informado e atualizado em tempo real. Segundo, o aperfeiçoamento das empresas de logística, que hoje englobam todas as necessidades do cliente. Anteriormente, o cliente tinha de contratar para cada etapa do transporte de sua carga uma empresa específica, enquanto que, hoje, uma única empresa se encarrega de fazer todo o processo logístico, desde o picking até a entrega.
Logweb: Qual a importância do setor de logística num país como o Brasil?
Zech: Em um país com as dimensões do Brasil, a logística pode ser o fator decisivo para torná-lo competitivo dentro do mercado mundial.
Logweb: De que maneira o senhor acredita que a Panalpina se tornou referência nesse setor perante o mercado?
Zech: A Panalpina foi uma das pioneiras em logística internacional. Já nos anos 70, quando as empresas brasileiras incrementaram suas vendas para o exterior, a Panalpina estava presente, assessorando e mostrando aos seus clientes os melhores caminhos. A Panalpina foi e é inovadora, sempre oferecendo ao mercado novos produtos. O último exemplo disso é o nosso próprio voo de Huntsvile para Viracopos.
Logweb: Quais os principais obstáculos enfrentados pela empresa, a seu ver, para que conseguisse atuar no mercado logístico brasileiro? Como a Panalpina superou esses obstáculos e se firmou como um dos grandes players do setor?
Zech: A meu ver, os maiores obstáculos existentes são a infraestrutura deficitária dos portos e aeroportos e a burocracia brasileira, que dificulta todo o processo logístico. A Panalpina, com relação à burocracia, prima pelo perfeccionismo, fazendo com exatidão tudo que é solicitado pelas autoridades brasileiras, desta forma evitando atrasos, por exemplo, nas liberações de carga. Com relação à infraestrutura, nós tentamos encontrar alternativas que evitem os estrangulamentos existentes nos portos e aeroportos.
Logweb: Quais as diferenças no mercado logístico brasileiro em relação aos de outros países em que o senhor já atuou?
Zech: Hoje, a grande diferença é o “custo Brasil”. A maioria dos mercados se deu conta de que o custo logístico é um dos principais fatores para serem competitivos e investiram muito neste setor. O Brasil ainda precisa dar esse passo.
Logweb: Na sua visão, o que é imprescindível para que seja possível realizar uma logística bem feita?
Zech: Profissionais competentes e bem treinados e sistemas informatizados.
Logweb: Quais as tendências atuais e para os próximos anos, na logística brasileira e global?
Zech: Indubitavelmente, a logística só tende a crescer no mundo todo. No meu ponto de vista, a globalização só tende a crescer e continuar. Com relação à armazenagem e aos Centros de Distribuição, eu vejo uma área de muito crescimento, as empresas começaram a perceber que a terceirização é o melhor caminho a seguir. Isso pode ser constatado pelo grande número de Centros de Distribuição que existem e estão sendo construídos ao longo das estradas.
Logweb: Que investimentos ainda são necessários para que o setor continue em crescimento no Brasil?
Zech: Sem sombra de dúvida, a infraestrutura dos portos e aeroportos brasileiros tem de ser melhorada. Outro ponto fundamental é a profissionalização da área. É necessária a criação e a incrementação de cursos, tanto no nível técnico como universitário na área de logística.
Logweb: Qual o papel do poder público no que se refere ao setor de logística no Brasil? E o que ele faz para fazer a logística nacional crescer e o que deixa a desejar?
Zech: O papel seria de regulamentar a área e fazer cumprir suas regras. Investir mais em infraestrutura, criando alternativas de transporte, como redes fluviais e ferrovias, melhorando e construindo mais estradas e acessos aos portos e aeroportos brasileiros. O que vejo de modo muito positivo é o movimento que está sendo feito para privatização dos portos e aeroportos, a exemplo do que acontece na Europa e nos Estados unidos.
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