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Conteúdo 17 de junho de 2024

Logística 4.0 e o país do futuro

Ainda recentemente, aqui mesmo neste site, nosso amigo Paulo Roberto Bertaglia, ao publicar excelente artigo – “Além da eficiência: Logística 4.0 como motor de inovação e sustentabilidade” –, escreveu que “à medida que o mundo avança para uma era de inovação sem precedentes, a Logística 4.0 emerge como um marco de transformação no panorama industrial. Mais do que uma mera tendência passageira, este novo paradigma representa uma revolução que redefine as fronteiras da eficiência, da personalização e da sustentabilidade”.

Bertaglia ainda escreveu que a Logística 4.0, por ter “uma abordagem moderna que integra tecnologias avançadas na gestão de cadeias de suprimentos”, ao priorizar a digitalização e a interconectividade dos processos logísticos, gera, como principais resultados, otimização das operações e os aumentos da eficiência e da produtividade.

Depois de defender ‘três pilares fundamentais’ da Logística 4.0 (Integração de Tecnologias Avançadas, Automação e Dados em Tempo Real e Personalização e Flexibilidade), Bertaglia ainda discorre sobre as principais tecnologias envolvidas, tais como a Internet das Coisas (IoT), Big Datas, Inteligência Artificial (IA), Automação e Robótica.

Por fim, ao descrever os principais desafios, além dos custos iniciais e os investimentos necessários, Bertaglia comenta sobre infraestrutura, segurança cibernética, questões éticas, sustentabilidade ambiental, capacitação e treinamento e o “papel da educação” (grifos meus).

No último dia 11, a jornalista Luciane Carneiro, no jornal Valor, abordou outro assunto de extrema importância: “Aumento da produtividade será chave para PIB per capita”. Com dados elaborados pelos professores José Ronaldo de Castro de Souza Jr. e Cristiano da Costa Silva, a serem divulgados juntamente com o lançamento do livro “O desafio da produtividade: como tirar o Brasil da armadilha da renda média” (Editora Lux, 2024), constata-se que relativo ao “crescimento anual de 1,84% do PIB per capita brasileiro, entre 1970 e 2023”, 64% são oriundos da produtividade do trabalho, 31% daquilo que se chama razão da independência (parcela da população em idade ativa com relação à população total) e 28% vieram da taxa de participação (relação entre as pessoas ocupadas e buscando ocupação e o total da população ativa).

Porém, e conforme concluem Souza Jr. e Costa Silva, “o crescimento (da produtividade do PIB per capita) via contratação de pessoas que estavam fora do mercado de trabalho está acabado”, assim como o “bônus demográfico”, submetendo o Brasil a ter crescimento do PIB per capita somente através do aumento da produtividade do trabalho!

Ainda no mesmo artigo de Valor, comenta o professor da Fundação Dom Cabral, Carlos Primo Braga: “a capacidade de o Brasil aproveitar esse momento (das mudanças nas estruturas produtivas, notadamente pela evolução da tecnologia e da inovação), também depende da melhoria da qualidade da educação e da qualidade dos investimentos realizados na área”.

Em resumo: o Brasil vai depender, muito e cada vez mais, do aumento da produtividade do trabalho, da maior abrangência (em termos de quantidade) e da qualidade da educação, caso queira alcançar níveis melhores e maiores de sua renda per capita.

Nos campos da política à economia, da saúde à segurança pública, da educação à geração de empregos, ou da infraestrutura e do meio ambiente à urbanização, são muitos os problemas para o Brasil resolver, mas aumentar nossos índices de produtividade e melhorar a educação são itens que devem fazer parte da lista das prioridades nacionais.

Estudos do Banco Mundial (“Emprego e Crescimento: A agenda da produtividade”), por exemplo, dão conta que, caso a produtividade brasileira fosse similar à dos Estados Unidos, a renda per capita no Brasil aumentaria 2,7 vezes se comparada com a atual. E o IPEA (Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas), em seu documento “Desafios de uma Nação”, aponta que seria preciso que o Brasil, além de ter que dobrar os investimentos em infraestrutura, multiplicasse por três (de 0,5% aa para 1,5% aa) a expansão da produtividade, caso queira, em 2050, dobrar a renda per capita do brasileiro. Já o BNDES, ao estabelecer linhas de financiamento para o desenvolvimento (“Visão 2035 – Brasil, país desenvolvido”), explicita: “crescimento (econômico) acima de 2% aa, de forma sustentada, só com grandes saldos de produtividade”. E mais adiante: “uma das razões da baixa produtividade brasileira é a baixa qualidade da educação básica” (grifos meus).

O economista Eric Hanushek, doutor em economia pelo MIT e professor da Universidade Stanford dos EUA, fez um estudo em cerca de 80 países e constatou que “a boa formação escolar de uma população explica em torno de 75% do PIB”. “E olhe que estamos tratando apenas de conhecimento básico mesmo – matemática, linguagem, ciências e a capacidade de juntar as peças e solucionar problemas simples”.

Conclui-se, portanto, que “leitura, compreensão e comunicação corretas” são condições indispensáveis para que as pessoas, assim como os profissionais, tenham acesso à todas as áreas do conhecimento, tornando-se fundamental que todo cidadão tenha capacidade de entender o que lê e o que ouve.

Já em 2015 a Diretora Sênior Global de Educação do Banco Mundial, em artigo publicado no Estadão (29/11/15) afirmava: “o desenvolvimento de competências como leitura, interpretação de textos, raciocínio matemático e de aplicação de um repertório científico e cultural em problemas da realidade, é importante para qualquer caminho profissional posterior”. “Essas competências devem ser trabalhadas nas escolas regulares e reforçadas em cursos profissionais ao longo da vida de cada indivíduo”.

Deduz-se, inevitavelmente, que ganhos de produtividade somente poderão ser obtidos a partir da capacitação das pessoas, uma vez que, de forma direta, são elas as responsáveis pelo sucesso de todas as atividades inerentes à vida do ser humano, notadamente aquelas voltadas à inovação, ao desenvolvimento da tecnologia, da ciência e das pesquisas.

Para isso, uma das receitas defendidas por muitos especialistas é unir o setor produtivo às escolas, convencendo estas últimas que, além do relevante papel na educação dos jovens, via transmissão de conhecimentos, elas também precisam produzir aprendizados voltados à produção e à organização do processo produtivo. Em especial as universidades e os cursos técnicos, com programas específicos que estimulem a inovação, o empreendedorismo, a sustentabilidade e o gosto pela pesquisa.

Neste ponto, permito-me reforçar: a união entre a classe empresarial e os responsáveis pelo direcionamento da educação precisa ocorrer desde o ensino médio, pois é fundamental estimular os alunos, principalmente os adolescentes, que ir à escola não é “ruim”, podendo se transformar, além de útil, uma atividade “legal”. E isso deve ocorrer em todos os níveis educacionais, “pois o prosseguimento na vida escolar ficará totalmente comprometido caso a base não esteja com os mesmos objetivos e qualificação. Escolas com alto padrão de ensino, nas quais os alunos não ficam somente decorando datas e fórmulas, mas aprendendo a resolver problemas, estão diretamente ligadas ao aumento da produtividade e, consequentemente, ao crescimento de um país. Profissionais capazes e bem formados são instrumentos para a inovação, o empreendedorismo e o aumento da produtividade”.

Infelizmente, o Brasil está atrasado! Além de termos, ainda, um número altíssimo de analfabetos (Censo Demográfico de 2022 do IBGE), pois são 11,4 milhões de brasileiros (7% da população brasileira com mais de 15 anos), são péssimas as colocações do Brasil nas avaliações de desempenho educacional. Nos níveis médio e fundamental (PISA – Programa Internacional de Avaliação de Estudantes; IDEB – Índice de Desenvolvimento da Educação Básica ou ENEM – Exame Nacional do Ensino Médio) nossas avaliações, se não são desastrosas, ainda estão distantes daquilo que se necessita. E quando analisamos os resultados dos exames realizados pelos recém-formados, um verdadeiro vexame (OAB – Ordem dos Advogados do Brasil e CREMESP – Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo são exemplos).

Embora tenhamos melhorado no ano de 2023, os índices de Inovação ainda estão aquém de nossas necessidades e, por que não, da nossa capacidade. O Brasil ocupa a 49ª posição no Índice Global de Inovação, em 132 países analisados (1ª posição na América Latina e a 3ª entre os países do BRICS).

Observando agora os índices de investimento em Pesquisa e Desenvolvimento (P&D), um dos principais pilares do desenvolvimento de um país, o Brasil também não tem muito o que comemorar, pois a maioria das pesquisas publicadas indica que os investimentos brasileiros estão muito abaixo da média observada nos principais países do mundo. Informações do FNDCT (Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico) indicam que investimos apenas o equivalente a 1,34% do PIB em Ciência e Tecnologia no ano de 2020 (0,78% públicos e 0,57% empresariais). Em 2000 esse percentual era de 1,32% (0,72% públicos e 0,60% empresariais).

Resumindo: a baixa qualidade do ensino, em todos os níveis, a ineficácia dos investimentos realizados (mais do que a quantidade de recursos é preciso discutir formas mais eficazes e corretas de aplicação e controle, até porque o Brasil tem índices de investimento satisfatórios e acima até de países desenvolvidos), o pouco e ineficiente incentivo nos campos da ciência, da pesquisa e da inovação são diretamente proporcionais às baixas qualificação e capacitação do trabalhador brasileiro e, consequentemente, obstáculos ao aumento da produtividade do trabalho, à competitividade e ao desenvolvimento. Círculo vicioso que, de forma cruel, condena qualquer país ao atraso.

Repetindo o que tenho citado em artigos anteriores, é preciso transformar nossos trabalhadores em verdadeiros profissionais, focados nos clientes, capacitados, inovadores, respeitadores do meio ambiente, preparados para a solução de problemas e para o futuro, principalmente no que diz respeito aos avanços tecnológicos. Aproveito a excelente ‘dica’ dada pela saudosa escritora Lya Luft e incluo na lista, “mais educados”. Segundo ela, “um povo educado é um povo informado, que saberá ter consciência de suas responsabilidades e escolher seu destino. Com a educação de todos, sem exceção, virão os demais benefícios necessários a um povo digno, como saúde, infraestrutura, segurança, economia equilibrada e florescente, ótimas relações com países estrangeiros e lugar de destaque entre as nações civilizadas” (“Deseducando o Brasil”, publicado pela Revista Veja dia 03/02/2016).

Além de uma Logística 4.0, necessária e fundamental para que o Brasil avance de forma concreta e sustentável, é imprescindível, entre outras providências também urgentes, que a educação se transforme em prioridade nacional e seja considerada uma estratégica e instrumento de desenvolvimento, pois não há espaço para improvisos, incompetência, demagogia ou populismo. Alie-se a tudo isso que educação de alto nível também é fundamental para a manutenção da democracia, da cidadania e da dignidade de seu povo, seja como ser humano, como cidadão ou profissional. A educação ainda é o melhor caminho, o mais rápido e de menor custo, para se promover o desenvolvimento e se alcançar melhorias efetivas no processo de distribuição de renda. Enquanto isso não ocorrer teremos dificuldades para alcançarmos uma Logística 4.0 e, lamentavelmente, nos manteremos por mais algum tempo na posição de país do futuro.

Paulo Roberto Guedes Paulo Roberto Guedes

Formado em ciências econômicas (Universidade Brás Cubas de Mogi das Cruzes) e mestre em administração de empresas (Escola de Administração de Empresas de São Paulo/FGV). Professor de logística em cursos de pós-graduação na FIA (Fundação Instituto de Administração), ENS (Escola Nacional de Seguros) e FIPECAFI (Fundação Instituto de Pesquisas Contábeis, Atuariais e Financeiras). Membro do Conselho Consultivo da ABOL – Associação Brasileira de Operadores Logísticos, da qual também foi fundador. Membro do Conselho de Administração da ANHUMAS Corretora de Seguros. Diretor de Logística do CIST – Clube Internacional de Seguro de Transporte. Consultor Associado do escritório de Nelson Faria Advogados. Consultor empresarial e palestrante nas áreas de planejamento estratégico, economia e logística. Articulista de diversas revistas e sites, tem mais de 180 artigos publicados. Exerceu cargos de direção em diversas empresas (Veloce Logística, Armazéns Gerais Columbia, Tegma Logística Automotiva, Ryder do Brasil e Cia. Transportadora e Comercial Translor) e em associações dos setores de logística e de transporte (ABOL – Assoc. Brasileira de Operadores Logísticos, NTC&L – Assoc. Nacional do Transporte de Cargas e Logística, ANTV – Assoc. Nacional dos Transportadores de Veículos, ABTI – Assoc. Brasileira de Transp. Internacional e COMTRIM – Comissão de Transporte Internacional da NTC&L). Exerceu cargos de consultoria e aconselhamento em instituição de ensino e pesquisa (Celog-Centro de Excelência em Logística da FGV), de empresas do setor logístico (Veloce, Columbia Logística, Columbia Trading, Eadi Salvador, Consórcio ZFM Resende, Ryder e Translor) e de instituição portuária (CAP-Conselho de Autoridade Portuária dos Portos de Vitória e Barra do Riacho do Espírito Santo). Lecionou em cursos de pós-graduação na área de Logística Empresarial na EAESP/FGV (Escola de Administração de Empresas de São Paulo da Fundação Getúlio Vargas) e em cursos de graduação de economia e administração de empresas em diversas faculdades (FAAP-Fundação Armando Álvares Penteado, Universidade Santana, Faculdades Ibero Americana e Universidade Brás Cubas). Por serviços prestados à classe dos Economistas, agraciado com a Medalha Ministro Celso Furtado, outorgada pelo Conselho Regional de Economia de São Paulo.

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