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Conteúdo 24 de maio de 2021

Um olhar estratégico sobre a logística, seus operadores e o mundo empresarial

Apesar das guerras e das pandemias, que têm ceifado a vida de milhares de pessoas em todo o mundo, parece certo que o aumento de expectativa de vida em muitos países e o alto índice de natalidade mundial ainda farão com que a taxa de crescimento populacional aumente por mais alguns anos. Hoje já somos mais de 7 bilhões de habitantes!

Consequentemente teremos a necessidade de produzir, movimentar e levar, para qualquer parte do planeta, quantidades cada vez maiores de bens e serviços econômicos. Não só para atender aqueles que vêm chegando, mas também, para melhorar o nível de vida de todos aqueles que aqui já se encontram.

A evolução tecnológica, que por si só tem feito crescer o comércio eletrônico, mesmo antes da pandemia, e a forte integração econômica instalada neste mundo ‘globalizado’ e ‘interdependente’, seja entre blocos econômicos, países ou empresas, farão com que as atividades comerciais, nacionais e internacionais correspondentes ocorram em volumes e complexidades ainda maiores. A exigência de eficiência, tanto na movimentação de mercadorias como no deslocamento de pessoas, também se fará presente, pois não pode haver desperdícios, atrasos ou realização de custos desnecessários.

Além de ter que se adequar aos ‘novos tempos’, atividades logísticas internacionais, por exemplo, que contemplam operações entre países com cultura, costume, documentação, tributação e legislação diferentes, continuarão a solicitar estratégias específicas, sofisticação operacional e correta adequação. Assim como as atividades administrativas, financeiras, transacionais ou negociais pertinentes. Vale ressaltar que em face do aumento da conectividade e da instalação de programas automatizados de transferência de dados, que têm como um dos seus principais pilares de sustentação e evolução, a tecnologia e os sistemas computacionais, também é exigido que se busque maior proteção contra ataques cibernéticos.

Tem sido crescente e constante, portanto, em todas as atividades que compõem a logística e o ‘supply-chain’, a demanda para que seja expandida e melhorada a infraestrutura operacional (estradas, portos, aeroportos etc.), os equipamentos de movimentação (em todos os seus modais) e as estruturas de armazenamento, além do aprimoramento das legislações pertinentes, dos sistemas de comunicação e de transferência de informações, dos programas de gerenciamento de riscos, do monitoramento e da cobertura de seguro. Em decorrência, também será imprescindível que se capacitem os profissionais de logística para esse novo papel.

Diante disso, uma das imediatas consequências, como já se constata, foi o crescimento mundial dos gastos com logística que hoje, como indicam diversos estudos, alcançam cerca de 12% do PIB mundial. Diante desse cenário, os usuários dos serviços logísticos passaram a ter, como custo logístico, um dos seus principais itens de despesas. No Brasil, segundo levantamentos feitos pelo ILOS – Instituto de Logística, esse percentual, em 2019, foi equivalente a 11,9% do PIB nacional.

Importante observar, porém, que paralelamente à busca de soluções logísticas mais eficientes, como forma de se diminuir os gastos correspondentes, a logística também passou a ser discutida como importante providência na obtenção de vantagens competitivas e de diferencial mercadológico, tanto para empresas como países. Ao se elaborarem estratégias e planos de negócios, a logística passou a ser, inquestionavelmente, um dos principais fatores de sucesso.

Essa constatação, que tenho chamado de “importância estratégica da logística”, nada mais é do que a compreensão de que uma logística eficaz, além de diminuir os custos operacionais, também se torna instrumento para alavancar a força do marketing, possibilita o aproveitamento e a exploração de mercados mais distantes (de insumo ou de consumo), agrega valor ao produto, à empresa e à nação exportadora e gera satisfação aos clientes, notadamente em ambientes extremamente competitivos. Além de ser um vigoroso meio para redução de custos, uma logística eficaz colabora e facilita a realização dos negócios empresariais e das nações.

Outra consequência do mundo moderno é o fenômeno da terceirização das atividades logísticas, levando operadores logísticos a aproveitarem o momento e aumentarem significativamente suas participações nesse processo em constante evolução. É fato que a terceirização da logística, em rápido crescimento no mundo atual, também se deveu ao fato de que a maioria dos “tomadores de serviços logísticos” tem estado plenamente satisfeito com seus operadores. E vale mencionar: são diversas as pesquisas, junto aos tomadores de serviços, em todo o mundo, que indicam a terceirização das atividades logísticas como uma das formas de se obter eficácia nessas operações.

Inicialmente foram terceirizados serviços mais simples e, em seguida, com o aumento da confiança e a maior capacitação de seus operadores, terceirizaram-se atividades mais complexas e estratégicas. Tendência em todo o mundo, os operadores logísticos deixaram de praticar atividades puramente operacionais e passaram a desempenhar papel muito mais estratégico junto aos seus clientes. É o operador logístico exercendo papel estratégico e possibilitando que os tomadores de serviços logísticos alcancem novos mercados, satisfaçam cada vez mais seus clientes e colaboram efetivamente para a realização de novos negócios.

Porém, todos os cenários desenhados para os próximos dois ou três anos, principalmente para o Brasil, são de situação bastante difícil. Sem qualquer tendência ao “terrorismo”, a conclusão é a de que os problemas vividos atualmente, incluindo a pandemia, são muito maiores e mais complicados do que se admite ou se percebe, não sendo impossível inclusive, que o País mergulhe numa recessão com inflação e desemprego. Momento difícil para todos!

Como consequência, a grande maioria das empresas brasileiras, com as exceções de sempre, encontrará sérias dificuldades para colocar seus planos de negócios em bons termos, não sendo à toa que todas elas busquem, inicialmente, resolver os problemas voltados à própria sobrevivência.

E é neste momento complicado que surgem grandes oportunidades para os operadores logísticos, pois como escrito anteriormente, os objetivos empresariais buscados exigem, entre outras providências, a melhoria no atendimento a clientes, suas cadeias de suprimentos e seus processos operacionais.

Mas, em qualquer circunstância, para terceirizações já implantadas ou a implantar, será necessário que se revejam as relações entre usuários e prestadores de serviços, pois é fundamental adaptar-se aos novos momentos e compreender as necessidades e exigências dos clientes. Por exemplo: se já era importante a realização periódica de avaliações de performance e ajustes contratuais, agora tornou-se fundamental a reavaliação dos contratos vigentes e, principalmente, das premissas consideradas à época da contratação, pois muitas mudanças ocorreram.

Portanto, considerando que nesta época de pandemia, ‘cadeias de abastecimento’ foram interrompidas ou alteradas de forma significativa e “novos valores” foram incorporados à forma como serão administradas as “novas empresas”, algumas providências no campo logístico precisam ser tomadas pelos operadores. Permito-me citar algumas:

 

1) Estabelecer planos de proteção à saúde efetivos, de forma a garantir segurança aos empregados, clientes e fornecedores;

2) Redefinir, claramente, escopo e obrigações de cada uma das partes;

3) Propor soluções logísticas com maior resiliência;

4) Reescrever fluxos operacionais de forma clara e que reflitam o novo momento operacional, bem como os aspectos estruturais relevantes;

5) Especificar os novos níveis de serviço, de segurança, de indicadores de desempenho e de relatórios de acompanhamento exigidos;

6) Estabelecer, sempre, programas de melhoria contínua, planos de contingência e de ganhos de produtividade;

7) Estabelecer processos de auditorias constantes e periódicas;

 

Caberá ainda aos operadores logísticos, uma vez que os desenhos logísticos tendem a ser mais personalizados e específicos para cada cliente, produto ou região, em mercados (consumidores ou fornecedores) cada vez mais complexos, entender que os desenhos das cadeias de abastecimento ou das redes logísticas, além de alto desempenho precisam ter maior resiliência, pois ali estarão incorporadas todas as decisões estratégicas e táticas do cliente.

Algumas limitações, entretanto, precisarão ser reconhecidas e administradas, tanto por operadores quanto pelos tomadores de serviços: (i) entender o que está ou não está sob seu controle; (ii) considerar o que não se sabe; (iii) entender as diferenças culturais entre as empresas; (iv) antecipar riscos e as resistências às mudanças; (v) solucionar os problemas do cliente, e não somente aqueles identificados através de sua percepção.

Diante disto, os operadores logísticos que quiserem ocupar espaços maiores terão, sem dúvida, que compreender as novas exigências, o novo momento e, mais do que nunca, os possíveis e eventuais impactos gerados pela pandemia, muitos dos quais ainda não se conhecem com a profundidade requerida. É óbvio que na medida em que as empresas usuárias de serviços logísticos, quase que de forma obrigatória, buscam a melhoria significativa no atendimento aos seus clientes e às suas cadeias de abastecimento, novos espaços e oportunidades vão sendo criados para os operadores. Mas é preciso estar preparado para bem aproveitá-las.

Em recente artigo (“Desafios para os profissionais de logística neste momento de grandes incertezas”), publicado aqui mesmo, dia 20.02.21, eu escrevi que “Compreender a logística, até pela sua própria essência, como instrumento estratégico de fundamental importância é essencial”.

O mundo empresarial, diante da pandemia e da consequente crise econômica instalada, ocupou-se, inicialmente, quase que única e exclusivamente com sua sobrevivência. Mas sabe que chegou o momento de “repensar seus negócios”, de forma profunda e que incorpore os novos princípios empresariais já aceitos, tais como o ESG (“Enviromment, Social e Governance”). Utilização de energia renovável, inclusão social, combate ao racismo e à discriminação e governança corporativa. Vale também para os operadores logísticos. Não resta outro caminho.

Paulo Roberto Guedes Paulo Roberto Guedes

Formado em ciências econômicas (Universidade Brás Cubas de Mogi das Cruzes) e mestre em administração de empresas (Escola de Administração de Empresas de São Paulo/FGV). Professor de logística em cursos de pós-graduação na FIA (Fundação Instituto de Administração), ENS (Escola Nacional de Seguros) e FIPECAFI (Fundação Instituto de Pesquisas Contábeis, Atuariais e Financeiras). Membro do Conselho Consultivo da ABOL – Associação Brasileira de Operadores Logísticos, da qual também foi fundador. Membro do Conselho de Administração da ANHUMAS Corretora de Seguros. Diretor de Logística do CIST – Clube Internacional de Seguro de Transporte. Consultor Associado do escritório de Nelson Faria Advogados. Consultor empresarial e palestrante nas áreas de planejamento estratégico, economia e logística. Articulista de diversas revistas e sites, tem mais de 180 artigos publicados. Exerceu cargos de direção em diversas empresas (Veloce Logística, Armazéns Gerais Columbia, Tegma Logística Automotiva, Ryder do Brasil e Cia. Transportadora e Comercial Translor) e em associações dos setores de logística e de transporte (ABOL – Assoc. Brasileira de Operadores Logísticos, NTC&L – Assoc. Nacional do Transporte de Cargas e Logística, ANTV – Assoc. Nacional dos Transportadores de Veículos, ABTI – Assoc. Brasileira de Transp. Internacional e COMTRIM – Comissão de Transporte Internacional da NTC&L). Exerceu cargos de consultoria e aconselhamento em instituição de ensino e pesquisa (Celog-Centro de Excelência em Logística da FGV), de empresas do setor logístico (Veloce, Columbia Logística, Columbia Trading, Eadi Salvador, Consórcio ZFM Resende, Ryder e Translor) e de instituição portuária (CAP-Conselho de Autoridade Portuária dos Portos de Vitória e Barra do Riacho do Espírito Santo). Lecionou em cursos de pós-graduação na área de Logística Empresarial na EAESP/FGV (Escola de Administração de Empresas de São Paulo da Fundação Getúlio Vargas) e em cursos de graduação de economia e administração de empresas em diversas faculdades (FAAP-Fundação Armando Álvares Penteado, Universidade Santana, Faculdades Ibero Americana e Universidade Brás Cubas). Por serviços prestados à classe dos Economistas, agraciado com a Medalha Ministro Celso Furtado, outorgada pelo Conselho Regional de Economia de São Paulo.

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