Daniel Salcedo, diretor comercial da Brado, fala sobre o uso da ferrovia na logística de bens de consumo

16/10/2023

Além de falar sobre os benefícios, as oportunidades, as limitações e os desafios do uso da ferrovia na logística de bens de consumo, nesta entrevista, Daniel Salcedo fala dos principais desafios e das soluções para a integração da ferrovia com outros modais de transporte na logística de bens de consumo, como as empresas estão integrando a ferrovia em suas cadeias de suprimentos para melhorar a eficiência e reduzir os custos logísticos e como o uso da ferrovia na logística de bens de consumo pode contribuir para a redução dos custos operacionais, dos riscos de perdas e danos e das emissões de poluentes, entre outros assuntos.

Salcedo é diretor comercial da Brado Logística, considerada referência nacional em serviços de logística multimodal, combinando o transporte de contêineres por ferrovia em distâncias longas e rodovia nas curtas. A empresa tem estrutura própria composta por 19 locomotivas, mais de 4,9 mil contêineres e 2,9 mil vagões, equipamentos, armazéns e terminais, complementadas por meio de parcerias estratégicas nos principais centros de consumo do país. “Com atuação cada vez mais adaptada às necessidades do mercado de importação, exportação e mercado interno, a empresa preza pela excelência na movimentação de contêineres no Brasil”, diz Salcedo.

Acompanhe a seguir a entrevista.

Quais são os benefícios, as oportunidades, as limitações e os desafios do uso da ferrovia na logística de bens de consumo?

A movimentação de bens de consumo pela ferrovia foi uma estratégia de mercado impulsionada pela Brado nos últimos anos. Até então, as ferrovias costumavam transportar majoritariamente grandes quantidades de um mesmo produto, como grãos, minérios e combustíveis. A Brado identificou nos bens de consumo uma oportunidade de diversificar as operações e trazer novas opções logística para clientes de diferentes ramos de atuação. Em 2017, ano que marcou o início das operações da empresa neste segmento, foram movimentados mais de 500 contêineres de produtos que saem das indústrias localizadas na Região Metropolitana de Campinas, SP, para abastecer o mercado de consumo de Mato Grosso. Atualmente, esse número já cresceu para mais de 12 mil contêineres movimentados ao ano, resultado que comprova que a opção multimodal oferecida trouxe ganhos para o setor.

Uma das vantagens para os clientes desse mercado é a possibilidade do estoque em trânsito. O atacadista ou distribuidor pode comprar uma carga na indústria e ainda não ter o espaço físico para receber esses produtos. Enquanto essa compra se desloca pela ferrovia, o estoque estará no trem, gerando um armazenamento livre de custos para o comércio. Do lado da indústria, funciona como um estoque avançado, fora de sua planta, também sem precisar pagar a mais por isso.

Quais são os principais desafios e as soluções para a integração da ferrovia com outros modais de transporte na logística de bens de consumo?

O maior desafio é fazer uma operação multimodal em um mercado que até então não tinha essa tradição. Nos últimos anos, a Brado vem estruturando um planejamento que envolve uma mudança de cultura no setor. É um trabalho que abrange desde o convencimento do cliente por uma nova opção logística até o desenvolvimento de soluções que contribuam para otimizar o tempo total da operação. Nas décadas passadas, o Brasil adquiriu uma cultura focada no transporte rodoviário, mesmo nas longas distâncias, situações em que outros modais como o ferroviário, hidroviário e cabotagem são mais eficientes.

Olhando para o viés de bens de consumo, o maior desafio é o lead time, ou seja, o tempo do ciclo operacional. O planejamento minucioso de todas as etapas da operação pode transformar um desafio em valor para os clientes, em razão do déficit de armazenagem que existe na indústria e varejo: não adianta o caminhão chegar rápido no atacadão se não há espaço para receber a mercadoria. O lead time maior pode se tornar uma vantagem ao equilibrar a capacidade de armazenagem com a carga que vai chegar, tornando a ferrovia estratégica para o planejamento operacional.

Como as empresas estão integrando a ferrovia em suas cadeias de suprimentos para melhorar a eficiência e reduzir os custos logísticos?

A operação multimodal que combina as distâncias curtas de caminhão e as longas no trem é o melhor atalho para as indústrias chegarem ao transporte ferroviário, possibilitando que um maior número de empresas tenha esse acesso. Além disso, o transporte em contêineres permite que empresas com fluxo menor também usem a ferrovia, já que é possível transportar a partir de um contêiner. Ou seja, a solução multimodal da Brado democratiza o acesso à ferrovia, que gera diversos valores aos clientes, entre eles eficiência, sustentabilidade e competitividade, sobretudo nas rotas mais longas.

Como o uso da ferrovia na logística de bens de consumo pode contribuir para a redução dos custos operacionais, dos riscos de perdas e danos e das emissões de poluentes?

A solução multimodal traz diversas vantagens aos clientes. A segurança das cargas é uma delas. Os produtos em contêiner ficam mais protegidos e há redução de perdas de cargas no transporte, de furtos e roubos e de acidentes. Como consequência, há uma diminuição do custo de seguro das cargas, o que é um fator de competitividade indireto. A eficiência também é ampliada, uma vez que a ferrovia permite o transporte de grandes volumes de carga de uma só vez, otimizando a logística de distribuição.

A operação multimodal com base ferroviária também traz benefícios ao meio ambiente por reduzir as emissões de gases de efeito estufa na atmosfera. A Brado oferece aos clientes uma calculadora de emissões de CO2: o Green Log. Na ferramenta online, é possível calcular as emissões evitadas com a adoção das soluções multimodais da empresa.

Ao optar pelo transporte ferroviário, no último ano os clientes do segmento de bens de consumo deixaram de emitir cerca de 11 mil toneladas de CO2, equivalentes à emissão anual de mais de 2,4 mil veículos. Seriam necessárias 79,4 mil árvores para absorver integralmente esse volume de CO2 que deixou de ser emitido.

Quais são as tendências, inovações e as perspectivas para o desenvolvimento e a expansão da malha ferroviária brasileira para atender à demanda crescente por bens de consumo?

No curto prazo, temos a circulação de trens de contêineres na Ferrovia Norte-Sul, no trecho que conecta Goiás ao Porto de Santos. A nova rota irá alavancar um novo ciclo de desenvolvimento e oportunidades para a região.

Serão captados os mercados de importação de insumos que abastecem as indústrias e o agronegócio do estado goiano, além dos bens de consumo que passam a ser distribuídos para as populações de Goiás, Distrito Federal e sul do Tocantins e, futuramente, chegando às regiões Norte e Nordeste.

Quais são os casos de sucesso de empresas que adotaram a ferrovia como parte de sua estratégia logística e quais resultados alcançaram?

A Brado tem em seu portfólio cerca de 40 clientes que operam cargas de bens de consumo no mercado interno, que variam desde produtos de higiene e limpeza até alimentos, bebidas, materiais de construção e eletrodomésticos, entre outros. Essa operação democratiza o transporte de cargas pela ferrovia e abastece supermercados, atacadões e lojas em geral no interior do País.

O grande case de sucesso dessa operação multimodal é o planejamento da operação no sistema round-trip (viagem completa), com trens totalmente carregados percorrendo grandes distâncias, seja no fluxo de ida ou retorno do trem, além dos caminhões como parceiros operando trajetos curtos para uma operação eficiente de ponta a ponta.

Como dito anteriormente, é uma operação que trouxe uma nova dinâmica para o setor. O melhor exemplo é a logística multimodal que atende os municípios de Mato Grosso e as cidades do interior paulista: a empresa movimenta no fluxo de ida (saindo de MT) as commodities como milho, ração e óleo vegetal. O milho, por exemplo, é recebido e armazenado em silos separados no Terminal de Rondonópolis. Isso assegura a qualidade das quase 600 mil toneladas transportadas por ano, que atendem o consumo no mercado paulista. Na volta para Mato Grosso, os contêineres são carregados com bens de consumo diversos (alimentos, bebidas, materiais de construção, produtos de higiene e limpeza, tintas). O recorde no fluxo em direção ao Centro-Oeste foi em junho de 2022, com taxa de ocupação de 94%.

Vale ressaltar que o transporte dos bens de consumo na viagem de retorno potencializa a sustentabilidade do negócio, ao transportar produtos em uma viagem que aconteceria de qualquer forma. Os benefícios se estendem à população atendida e aos motoristas de caminhão que trabalham nas pontas rodoviárias. Com os caminhões circulando nas pontas, nos trechos mais curtos, a jornada dos caminhoneiros é menos cansativa, reduzindo o número de acidentes. Eles também ganham qualidade de vida, com apoio nos terminais e a possibilidade de voltar para casa em menos tempo – dependendo da distância, no mesmo dia.

Compartilhe:
Veja também em Conteúdo
JSL lança “Estrada de Prêmios” para fidelizar motoristas, reduzir turnover e ampliar eficiência operacional
JSL lança “Estrada de Prêmios” para fidelizar motoristas, reduzir turnover e ampliar eficiência operacional
ID Logistics Brasil inaugura centros de distribuição para a Amazon e amplia operação de fulfillment
ID Logistics Brasil inaugura centros de distribuição para a Amazon e amplia operação de fulfillment
Alta no tráfego rodovias paulistas reflete avanço de veículos leves e pesados, aponta Veloe/Fipe
Alta no tráfego rodovias paulistas reflete avanço de veículos leves e pesados, aponta Veloe/Fipe
Gestão climática ganha relevância no setor logístico diante de eventos extremos: destaque do primeiro ABOL Day do ano
Gestão climática ganha relevância no setor logístico diante de eventos extremos: destaque do primeiro ABOL Day do ano
Frete mínimo da ANTT: o que muda para embarcadores e transportadoras no TRC, segundo a Mundo Seguro
Frete mínimo da ANTT: o que muda para embarcadores e transportadoras no TRC, segundo a Mundo Seguro
A combinação de juros elevados e restrição ao crédito tem levado o setor de transporte rodoviário a buscar novas estratégias de geração de receita. Diante da queda nas vendas de caminhões, empresas da cadeia logística passaram a acelerar a adoção de modelos baseados em serviços e receita recorrente no transporte, com foco em maior previsibilidade financeira. De acordo com dados da Federação Nacional da Distribuição de Veículos Automotores (Fenabrave), as vendas de caminhões recuaram 34,6% em janeiro deste ano em relação a dezembro de 2025. Além disso, na comparação com janeiro do ano anterior, a retração foi de 30,14%. Esse cenário reforça a necessidade de diversificação das fontes de receita em um ambiente mais volátil. Nesse contexto, a mudança de modelo reflete uma tentativa de reduzir a dependência de vendas pontuais de ativos. Ao mesmo tempo, empresas passam a incorporar soluções tecnológicas embarcadas nas frotas não apenas para ganho operacional, mas também como nova fonte de faturamento para concessionárias, revendedores e companhias de software. Receita recorrente no transporte avança com uso de tecnologia logística Segundo Rony Neri, diretor-executivo LATAM da Platform Science, multinacional americana especializada em soluções de segurança e tecnologia para o setor de transporte, a lógica do mercado está em transformação. “A lógica do setor está mudando. Antes, a receita estava concentrada na venda do ativo. Agora, com o uso de tecnologia, é possível construir uma base recorrente de faturamento, mais previsível e menos exposta às oscilações do mercado”, afirma. A empresa atua no desenvolvimento de plataformas tecnológicas para gestão de frotas e segurança operacional, permitindo a integração de dados e serviços no ambiente logístico. Dessa forma, soluções como telemetria, videomonitoramento e plataformas digitais passam a viabilizar modelos de assinatura, ampliando o ticket médio e a retenção de clientes. “A tecnologia passa a funcionar como uma camada de inteligência que fortalece o negócio principal e cria novas oportunidades de receita ao longo do tempo”, reforça Neri. Além disso, o movimento também alcança o agronegócio, onde a digitalização da logística tem impacto direto nos custos operacionais. Com o uso de dados e monitoramento em tempo real, produtores e operadores conseguem reduzir desperdícios, evitar falhas mecânicas e aumentar a eficiência no transporte da safra. “Esses ganhos operacionais têm impacto direto na rentabilidade, especialmente em um cenário em que o custo logístico é um dos principais fatores de pressão para o produtor rural”, detalha o executivo. Para empresas de software, a incorporação de dados operacionais das frotas abre espaço para expansão de portfólio sem necessidade de novos investimentos em hardware. Assim, aumenta-se o valor agregado das plataformas e amplia-se a oferta de serviços. Por fim, o modelo de receita recorrente no transporte tende a apresentar maior estabilidade em comparação à comercialização de produtos físicos. A venda de serviços contínuos, baseada em assinaturas, contribui para reduzir a sazonalidade típica do setor e cria uma base mais previsível de faturamento ao longo do tempo. “A recorrência permite que empresas atravessem períodos de baixa venda de ativos sem perda significativa de receita. É uma mudança estrutural na forma como o setor captura valor”, finaliza Neri.
Queda nas vendas de caminhões impulsiona receita recorrente no transporte, sinaliza Platform Science

As mais lidas

01

Transporte de cargas perigosas: falhas operacionais aumentam riscos e exigem mais segurança, adverte consultor
Transporte de cargas perigosas: falhas operacionais aumentam riscos e exigem mais segurança, adverte consultor

02

Shopee inaugura centro de distribuição fulfillment em Minas Gerais e reduz prazos de entrega
Shopee inaugura centro de distribuição fulfillment em Minas Gerais e reduz prazos de entrega

03

Intermodal 2026 chega à 30ª edição como hub estratégico da logística global e vitrine de inovação, negócios e integração multimodal
Intermodal 2026 chega à 30ª edição como hub estratégico da logística global e vitrine de inovação, negócios e integração multimodal