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Entrevista 10 de novembro de 2021

Carlos Mira fala sobre a greve dos caminhoneiros. E também traça um cenário do transporte rodoviário de cargas hoje

Marcada para começar no dia 1º de novembro último, a greve dos caminhoneiros autônomos não teve a adesão prevista. Apesar do aumento constante dos preços dos combustíveis, a manifestação do setor teve baixa adesão e não houve bloqueio em nenhuma das rodovias federais ou pontos logísticos estratégicos. O que se teve foram poucas localidades com concentração de manifestantes.

Podem ser elencados vários motivos para a greve não ter prosperado, como a polarização política do país e o pequeno volume de cargas movimentado. Ou o fato de a categoria ser muito descentralizada e não ter representatividade política no Congresso Nacional. Em 2018, foram atendidas praticamente todas as pautas, mas elas não vigoraram.

Outro motivo seria a “briga de egos” entre as diferentes lideranças. E, também, o fato de o governo federal ter conseguido 29 liminares na Justiça para impedir interdições nas estradas, mediante multas que variavam de R$ 5 mil a R$ 1 milhão, esfriou os ânimos do movimento grevista.

Mas, a Logweb foi ouvir Carlos Mira, CEO e fundador do TruckPad – plataforma que conecta caminhoneiros autônomos e transportadoras – e um grande conhecedor do setor de transporte rodoviário de cargas. Ele possui mais de 35 anos de experiência no setor e já foi presidente da Associação Brasileira de Logística – Abralog e vice-presidente da Associação Brasileira de Logística e Transporte de Cargas – ABTC.

 

Quais os fatores que levariam a greve dos caminhoneiros a ter sucesso?

Uma greve bem construída é respaldada por uma pauta de reivindicações bem fundamentada que, de fato, atenda às reais necessidades da categoria. Para isso, é necessário que exista um amplo movimento pelos direitos da categoria, o que não existe hoje. Depois, as entidades de classe precisam apoiar esse movimento e, na situação atual, o que temos são divisões muito grandes entre as lideranças e a maior parte delas é institucionalizada. 

 

Por que as outras tentativas, desde 2018, não tiveram êxito?

Os movimentos que vêm acontecendo nos últimos meses não têm a mesma força da greve de 2018 porque, em grande maioria, são ações respaldadas por movimentos políticos e não por reivindicações concretas. Em 2018, a paralisação foi provocada por uma insatisfação geral, em relação à qualidade das estradas, ao preço de fretes e também ao próprio governo. Então, à época, existia, de fato, uma pauta de reivindicação econômica para a categoria e hoje não há. O que temos são reivindicações políticas e muito distantes da realidade dos trabalhadores, e que em grande maioria são organizadas por grupos isolados e institucionalizados. 

 

Na verdade, quem se beneficia da greve dos caminhoneiros?

Pontualmente para esta greve, são os movimentos dos trabalhadores. Ouvimos falar em CGT, CUT, dentre outros partidos de esquerda que tentam se apropriar do movimento dos caminhoneiros para entrarem em greve. 

 

As reivindicações desta grave foram coerentes?

Todas as reivindicações dos caminhoneiros são coerentes, o problema é quando tentam tratá-las como possíveis implementações, tornando mais complicado de se conseguir executá-las. 

Faça uma análise do setor de transporte rodoviário de cargas hoje: problemas, deficiências, possíveis soluções, etc.

O setor ainda está muito enraizado no século passado, não se apoderou de soluções digitais, como comunicações em nuvem e demais soluções tecnológicas, que podem resolver problemas de trocas de informações. Infelizmente, o Brasil, mesmo sendo um país grande, ainda para na burocracia de fiscalização dos estados, quando falamos de ICMS, de documentos em relação às estradas e de todo o processo burocrático. 

 

O cálculo do preço do frete hoje atende às reais necessidades do mercado? Explique.

O problema não é o cálculo do preço, mas sim que existe um excesso de oferta e isso faz com que os preços praticados sejam, muitas vezes, abaixo da linha de custo. O cálculo está correto, mas o problema é que empresas e caminhoneiros, por conta do excesso de oferta, têm oferecido serviços por preços menores do que a linha de custo. 

 

Qual o impacto do preço dos combustíveis no setor?

A maioria dos produtos são transportados pela malha rodoviária do país e os profissionais das estradas, os caminhoneiros, são os mais afetados. Com o aumento de custo de produção e o mercado volátil dos combustíveis, os caminhoneiros tiveram redução brusca no lucro pelo transporte das mercadorias. Além da perda de lucro e crescimento de gastos para rodarem, esses trabalhadores, muitas vezes, precisam diminuir rotas de distribuição, o que encarece diretamente os custos de transporte de cargas. Outro fator é o preço do frete, que muitas vezes não acompanha o aumento dos combustíveis, gerando um desequilíbrio enorme.

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