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Conteúdo 3 de fevereiro de 2021

Logística para saúde: planejamento é fator crítico de sucesso

Contextualização

Segundo definições acadêmicas, planejamento é a “ferramenta de gestão que possibilita perceber, com exatidão, a realidade, avaliar os caminhos, construir um referencial futuro, o trâmite adequado e reavaliar todo o processo a que o objeto se destina…, sendo o lado racional da ação…, antecipando os resultados esperados”.

Planejar é, portanto, “decidir com a antecedência necessária o que fazer, como fazer, quando fazê-lo, onde executar; como executá-lo; quem deve fazer o que e a qual custo”! Esta abordagem encontra-se na construção dos Planos de Ação, ou seja, os 5W2H, representados pelo What? (O que?); Who? (Quem?); Where? (Onde?); When? (Quando?); Why? (Por que?); How? (Como?) e How Much? (Quanto?).

Creio ser oportuno definir os três principais níveis do planejamento: o estratégico, o tático e o operacional.

Planejamento estratégico é “o conjunto de elementos e mecanismos sistêmicos utilizando-se de corretos processos metodológicos para contextualizar e definir o estabelecimento de metas, o empreendimento de ações, a mobilização de recursos, objetivando-se a correta tomada de decisões, para que se atinja o sucesso daquilo que é estabelecido nas metas projetadas”.

No que concerne ao planejamento tático, define-se “como sendo o desdobramento da visão em planos de ação menores, em tarefas e atividades”, assim como, o planejamento operacional “deve ser compreendido como sendo aquele que executa, na prática, as várias etapas dos planos de trabalho”. (as descrições acima são adaptadas pelo autor para melhor entendimento, bem assim os grifos postos).

É de se compreender, portanto, que para atingir-se metas, é necessário, como condição sine qua non, traçar e cumprir o correto planejamento para levar os planos à correta e eficaz execução, envolvendo e comprometendo todos aqueles que estiverem direta e/ou indiretamente integrados ao projeto.

Desta forma, considerar o planejamento como estratégico assim como o fazemos ao estabelecermos a logística como integrada, com a devida licença acadêmica, é utilizar-se de “pleonasmo vicioso”, dado que, se assim não procedermos, o insucesso é inevitável, sendo o único resultado a esperar!

A experiência do Brasil no planejamento e execução das campanhas de vacinação vis-à-vis as ocorrências frustradas no caso da pandemia do coronavírus

O Brasil, historicamente, é um dos países do mundo que melhor planejamento tem para a realização das inúmeras campanhas de vacinação humana (febre amarela, gripe, H1N1, sarampo, coqueluche, pólio, outras), e animal (febre aftosa, raiva, dentre outras).

Esperar-se-ia, desta forma, que no trato da maior pandemia já conhecida no mundo, ter-se-ia o mesmo planejamento do qual o Brasil é referência. Como dizem os mais jovens, “só que não”!

Há um ano, em 22/01/2020, a BBC News tornava público que “um vírus desconhecido pela ciência até há pouco vem causando uma doença pulmonar grave em centenas de pessoas na China, e já foi detectado nos Estados Unidos, Taiwan, Tailândia, Japão, Coreia do Sul e Macau. Ao menos 17 pessoas morreram em decorrência do vírus, que surgiu em dezembro passado na cidade chinesa de Wuhan. Ele infectou mais de 400 pessoas, segundo registros oficiais”. O que se esperava era que uma pesquisa aprofundada fosse realizada e decisões responsáveis fossem à época consumadas sobre a matéria.

Segundo trabalho publicado na revista Memórias, do Instituto Oswaldo Cruz, o novo coronavírus começou a se espalhar no Brasil por volta da primeira semana de fevereiro, isto é, mais de 20 dias antes do primeiro caso ser diagnosticado em um viajante que retornou da Itália para São Paulo, em 26/02/2020, e quase 40 dias antes das primeiras confirmações oficiais de transmissão comunitária, em 13/03/2020. Em 12/03/2020, o Ministério da Saúde registra a primeira morte por Covid-19 no Brasil, em São Paulo.

No Brasil, o primeiro estado a decretar o lockdown foi o Maranhão, no dia 30 de abril, por força de decisão da Justiça Federal de São Luís. Na sequência, os demais estados da federação seguiriam a medida ao longo do mês de maio.

O planejamento estratégico do Governo Federal deveria ter iniciado já em março, não fora o negacionismo, a proliferação das fake news e a defesa de tratamentos preventivos infundados, sem base nem formulação científica. Perdemos o timing, perdemos a mão, perdemos (muitas) vidas, atingindo, hoje, a triste marca de mais de 226 mil brasileiros mortos vítimas da Covid-19.

O Brasil, referência mundial em campanhas de vacinação, padece de falta de planejamento, sobretudo e principalmente, na área da saúde, crucial para os cidadãos.

Para suprir um país de dimensões continentais, geografia diversa, com variação climática incomum, e 220 milhões de habitantes, o Brasil, imperativamente, precisaria ter planejado sua estratégia de combate ao coronavírus já em maio de 2020, como responsavelmente previa o ex-ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, demitido em 16/04/2020, por divergências com o presidente da República quanto à política de enfrentamento da Covid-19.

Quando nos referimos ao planejamento estratégico necessário para combater a Covid-19, referimo-nos à sua complexidade diante das características do país, demandando mobilização de todos os Estados da Federação, necessariamente sob o comando central do Ministério da Saúde, frente a diferentes fornecedores de insumos e produtos, a exemplo dos imunizantes IFA (ingredientes farmacêuticos ativos), frascos, seringas, agulhas, embalagens frigorificadas de transporte certificadas pela ANVISA (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) etc, de serviços, quer seja aqueles do setor de saúde, quer seja os logísticos (transportes, armazenagem e gestão de estoques).

Far-se-ia necessário ter sido adquirido ou formalizado promessas de compra das vacinas em estágio avançado de testes à época, junto aos laboratórios e indústrias farmacêuticas em estágio avançado de testes, a exemplo da chinesa Sinovac, produtor da Coronavac, a qual viria a fechar parceria com o Instituto Butantan, em São Paulo, e da inglesa Oxford/AstraZeneca, esta em parceria com a BioManguinhos/Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), no Rio de Janeiro, além da americana Pfizer em parceria com a alemã BioNtech.

Por precaução, talvez se fizesse ainda necessário incluir a vacina russa Sputnik V em parceria com a brasileira União Química; estando em alerta contínuo para aquelas outras que também vinham publicando seus resultados de sucesso nas revistas científicas, a exemplo das americanas Moderna e Johnson & Johnson, esta última desenvolvida pelo Beth Israel Deaconess Medical Center (BIDMC), da faculdade de medicina da Universidade Harvard, nos Estados Unidos, em parceria com farmacêutica Janssen.

Além das próprias vacinas, o planejamento deveria contemplar seringas, agulhas, frascos e demais insumos e produtos fundamentais para atender à campanha de vacinação.

Assim ponderamos dado que, cada uma dessas vacinas terem suas especificidades, a exemplo das condições de temperatura de armazenamento e transportes, como as da Oxford/AstraZeneca e Coronavac, poderem ser operacionalizadas a temperaturas entre 2 oC e 8 oC (graus célsius), enquanto que a da Pfizer/BioNtech demanda estruturas frigorificadas mais robustas, capazes de manter doses em -70 oC.

Para recepcionar, receber, armazenar e distribuir as vacinas para todos os 5.570 municípios brasileiros sob condições corretamente planejadas, como aqui defendidas, a experiência brasileira de décadas em campanhas de vacinação estaria absolutamente estabelecida!

Para atender, contudo, à demanda da forma como se apresenta, i.e., emergencial, faz-se mister uma verdadeira operação de guerra, utilizando-se, para tanto, de frotas aérea e terrestre capazes de atender à celeridade que se faz necessário, a custos mais elevados, podendo vir a comprometer o resultado geral.

Isso sem falar da necessária capilaridade através de balsas e barcos diversos, para atender à demanda dos rincões mais distantes. A boa notícia é que temos nos Operadores Logísticos e nas transportadoras do país longa e profunda expertise para atender a essa operação de guerra.

Operadores logísticos nas operações de armazenagem e distribuição das vacinas

No Brasil, somos quase 280 empresas caracterizadas como Operadores Logísticos, de acordo com o último estudo realizado pela ABOL – Associação Brasileira de Operadores Logísticos e FDC – Fundação Dom Cabral, em julho de 2020. Ocorre que não muitas empresas estão capacitadas e certificadas pela ANVISA para atender às operações de armazenagem e distribuição das vacinas, estando na ABOL as mais expressivas e capacitadas empresas, todas certificadas pela agência reguladora, o que nos dá especial regozijo e um senso extremo de responsabilidade.

Independentemente da origem, quer sejam vacinas importadas, quer sejam produzidas no Brasil, invariavelmente, passarão pelos nossos Operadores Logísticos. O maior Centro de Distribuição do Ministério da Saúde está em Guarulhos, São Paulo, cuja operação é de um de nossos associados.

Para atender às secretarias de saúde estaduais e municipais, outros Operadores Logísticos filiados à ABOL estão na linha de frente para suprir o resto do país, tanto para a distribuição dessas mesmas operações, descritas anteriormente, quanto para suprir os insumos necessários, como seringas, frascos e demais itens fundamentais para a vacinação em massa.

Um planejamento estratégico bem estruturado, liderado pelo Governo Federal, integrando em rede todos os governos estaduais, os quais o seriam junto aos municípios, envolvendo os Operadores Logísticos e transportadoras, seria a correta condução para termos uma campanha de vacinação exemplar.

Aliado a isso, dever-se-ia registrar a fundamental e necessária aquisição das vacinas e de seus insumos, como já descrito anteriormente.

Agora, é correr contra o tempo para salvar vidas, lutar contra o imponderável, executando planos de contingência, rendendo-se aos ditames fundamentais do planejamento estratégico, amplamente teorizado neste artigo.

Por dever de justiça, parabenizamos todos os profissionais da ciência, responsáveis pela nobre tarefa de estudar, desenvolver e viabilizar a fabricação dos insumos e das vacinas para imunizar todos os cidadãos e cidadãs. Queremos igualmente parabenizar todos os profissionais de saúde, quer sejam os médicos, os enfermeiros, técnicos e auxiliares de enfermagem, bem assim aqueles que envidam hercúleos esforços, dia e noite, para salvar vidas e mitigar tanto sofrimento dos acamados.

Por fim, rendemos nossa honrosa homenagem aos nossos Operadores Logísticos, filiados ou não à ABOL, ao tempo em que lhes parabenizamos pela dedicação, profissionalismo e total comprometimento para o cumprimento eficiente e eficaz dessa hercúlea missão.

Carlos Cesar Meireles Vieira Filho Carlos Cesar Meireles Vieira Filho

Mestre em administração pela UFBA, é graduado em administração de empresas pela UPE, tem 35 anos de experiência em gestão empresarial e logística e relações institucionais e governamentais. É CEO da ABOL – Associação Brasileira de Operadores Logísticos.

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