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Conteúdo 14 de abril de 2021

Turbulências na cadeia global

14-04-21

 

Introdução
Estamos vivendo duras turbulências no universo da logística. A pandemia tem afetado as cadeias globais em todo o mundo. Nos mais diversos segmentos. Administrar a volatilidade, dentro do contexto do mundo VUCA (volatilidade, incertezas, complexidade e ambiguidade) já era difícil antes da disseminação do vírus; agora, está mais difícil ainda. Nesta situação sem precedentes, uma cadeia de abastecimento digital ágil e responsiva é extremamente importante.

O golpe da pandemia pegou muitas empresas de surpresa. Nem todos estavam preparados para encarar uma situação como a que estamos vivendo. Alguns segmentos sofreram seriamente com os “lockdowns”, ou bloqueios totais, freando suas vendas.

O pânico de consumidores rumo às compras de certos itens causou, por outro lado, um caos sem precedentes. Isto obrigou algumas empresas a responderem a uma demanda não planejada e afetando toda a sua cadeia de abastecimento: do cliente à mais longínqua camada de fornecimento.

E começam então a surgir poderosos questionamentos sobre como identificar antecipadamente os riscos e de que maneira podem ser mitigados. As incertezas continuam existindo. Como conduzir as operações neste complexo ambiente de mudanças? Como enxergar além do que vemos? Sim, esta é a expressão. Enxergar além do horizonte. Quem sairá fortalecido da crise? Quem sobreviverá?

Em 2020, eu participei de um webinar com Ronen Lazar, de uma empresa chamada INTURN, e Sanne Manders, COO da Flexport. Uma discussão bastante interessante, da qual extraí algumas ideias para elaborar este texto.

Volatilidade na demanda
Quando a pandemia eclodiu, a cadeia de abastecimento global sofreu uma inédita ruptura. De repente, uma economia baseada no consumo e padrões orientados a lojas, supermercados, comércio online e shoppings viu tudo entrar em colapso com fechamentos e sem uma luz que pudesse orientar o próximo passo.

Aqueles que se mantinham abertos, baseados na medição de temperatura, uso de máscaras e utilização de álcool gel enfrentaram uma demanda “sui generis”, quando clientes e consumidores esvaziavam as gôndolas e prateleiras para estocar em casa ou em seus comércios menores. Estoques de alimentos não perecíveis, papel higiênico, entre outros, foram feitos. Produtos que atendiam demandas fruto da permanência de pessoas em casa, como webcams, microfones e computadores pessoais se intensificaram. E aí vem a diferença.

Empresas que produzem bens essenciais tiveram uma demanda completamente oposta àquelas que comercializam bens não essenciais, como por exemplo produtos da moda. Os produtos essenciais como papel higiênico, materiais de limpeza, carne, arroz, feijão e outros básicos começaram a ser mais consumidos e armazenados em casa. Em alguns países o alto consumo de bebidas também aconteceu. Os consumidores focaram no essencial.

Para os produtos não essenciais ou menos básicos, a situação foi e tem sido desafiadora, obrigando a fazer promoções e descontos. A queda nas vendas foi alarmante. Muitas lojas fecharam suas portas com quantidades enormes de produtos em estoque. Contudo, ambas as situações forçaram as empresas a lidarem com a volatilidade na demanda.

Como estar preparado?
Eu particularmente gosto de uma frase de Mike Tyson que diz “todos tem um plano até levar um soco no rosto”. A volatilidade sempre existiu. Rupturas de estoque, de entregas e oscilações na demanda não são coisas de hoje. Durante a pandemia, esta volatilidade tem sido insana. Existem, no entanto, alguns pontos que devem sempre receber atenção:

• Segurança em termos de operação: aqui talvez o termo mais correto seria eu usar a palavra contingência, principalmente para empresas globais, tendo estoques e operações em países diferentes. Caso um país entre em colapso ou feche suas fronteiras, há a possibilidade de se produzir em outro. O grande problema é adivinhar que países podem estar submetidos a este tipo de ação. Mas vale a pena avaliar. A contingência é cara? Sim, é. Mas pode valer a pena no contexto de Supply Chain. A criatividade aqui é importante.

• Flexibilidade: Esta é uma questão extremamente importante. As organizações não apresentam o fator de flexibilidade em suas operações e tampouco em seus contratos. Qualquer crise que aconteça, e não precisa ser uma pandemia, não há margem para a manobra ou espaço para negociação. Qual a estratégia de armazenagem? Qual a estratégia de transportes? Quais são as cláusulas com operadores logísticos e vice-versa, por exemplo? Contratos de exclusividade são extremamente perigosos.

• Gestão de riscos: Avaliar as condições de continuidade dos negócios da empresa é uma obrigação ímpar. E dos fornecedores estratégicos também. Não só em termos de insumos, componentes e materiais, mas também a configuração de sua malha, habilidades e capacidades de agilidade de movimentação, caso o requisito de sua empresa seja a agilidade. Aliás, dentro do contexto da experiência do cliente, este é um requerimento de satisfação. Não o cumprir pode trazer o amargo dissabor de perder clientes.

A importância da tecnologia
Eu acredito muito no comércio eletrônico como um caminho para amenizar os problemas de vendas. Se as organizações não estiverem prontas, isso pode ser um sério impacto. Mesmo aquelas que estão no comércio online precisam ou precisaram se reinventar de alguma maneira. Muitas se saíram muito bem. Mas o declínio nas vendas pode ser grande para aquelas lojas que possuem apenas presença física. É o que vem acontecendo. Claro que tudo isto vai passar. E que seja logo. E as empresas com o conceito omnichannel, lojas físicas e digitais poderão voltar a brilhar. Mas não no momento.

Em qualquer estratégia digital, os dados desempenham um papel essencial. Os dados são elementos valiosos para enfrentar a volatilidade na demanda. Importante salientar que não é apenas estar pronto digitalmente, mas ter a capacidade analítica de ler e compreender os dados para a tomada de decisão.

Os dados precisam acima de tudo ser confiáveis. E, cá entre nós, no mundo da logística muito ainda temos de fazer para ter completa confiabilidade nos dados. Sem dados precisos, as decisões podem ser as mais inadequadas.

Por outro lado, a questão de obter os dados rapidamente em tempo real é uma questão fundamental. Existe transparência, visibilidade, sincronismo e colaboração na cadeia como um todo? Tenho certeza de que muitos dados fluem através da cadeia de abastecimento via telefone, WhatsApp e e-mails. Buscar o equilíbrio nos investimentos digitais pode fazer a diferença nas organizações. Desculpe-me se fui muito direto ao ponto aqui.

Conclusão
Difícil, hein? Não há bola de cristal. Uma coisa é certa. A volatilidade e as demandas serão diferentes, pois os consumidores irão consumir de forma diferente. Vai ser bem mais difícil planejar. Mesmo com inteligência artificial, que é algo que está em pleno desenvolvimento.

Busque criar, pensar e usar as habilidades internas e externas. Melhor ter apenas uma fábrica em algum lugar do mundo ou uma contingência? E a questão logística pode ser emblemática. De onde vem os insumos? Como contingenciar? Que tipos de modais utilizar? Muitos fornecedores de hoje não existirão amanhã.

E sobre os consumidores? O fato de limitarem seus gastos pode significar o medo do futuro. Do desemprego. O gasto adicional de hoje pode fazer falta em uma situação de crise de emprego. Você concorda? É o futuro que está em jogo. É o tipo de consumidor conservador que faz suas compras online, recebendo as compras na residência e ficando em casa o máximo que pode (como eu!!!).

Por outro lado, somos extremamente sociais e o distanciamento nos incomoda. Precisamos das conexões humanas. E quando tudo isso passar voltaremos, talvez não massivamente, a nos relacionarmos novamente. E aí? Como planejar tudo isso? Mais perguntas que respostas, não é verdade? Mas escrevi este texto para refletirmos juntos.

Voltando ao Tyson: planos podem furar. Mas é melhor tê-los e com contingências.

Por hoje é isso. Estamos por aqui. Ao infinito e além. Que a força esteja conosco. Nos cuidemos e muito! Estou no Linkedin. Me procure por lá e vamos trocar ideias. É sempre saudável! Me acompanhe também no meu canal do Youtube (clique aqui).

Paulo Roberto Bertaglia Paulo Roberto Bertaglia

Fundador e Diretor Executivo da Berthas, atuou nas empresas: IBM, Unilever, Hewlett-Packard e Oracle. Ao longo da carreira tem se especializado nas áreas de Supply Chain Management, Gestão estratégica de Negócios, Liderança, Vendas e Terceirização de Serviços. Professor de pós-graduação em Logística, Gestão Estratégica de Negócios e Tecnologia da Informação. É Autor de vários livros, entre eles Logística e Gerenciamento da Cadeia de Abastecimento – Editora Saraiva, 4ª edição – 2020. Realiza palestras de temas estratégicos, cadeia de abastecimento e liderança empresarial para empresas e instituições educacionais.

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