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Entregas 16 de outubro de 2023

Imposição do mercado por entrega ágil a um custo mais justo força a revisão das redes de abastecimento

Muitos projetos, tanto em termos de CDs, quanto de condomínios logísticos, estão surgindo para consolidar a malha física, considerando localizações de fornecedores e clientes. Também merecem atenção os encargos tributários, que trazem inúmeros desafios.

Antes de falar da revisão da malha logística, é preciso lembrar que esta revisão, hoje, atende às necessidades intrínsecas do setor, baseadas nas novas exigências dos clientes, sobretudo no que diz respeito a maior agilidade na entrega a custos mais justos.

Mas, quais são os principais desafios que as organizações enfrentam ao buscar atender a esta “imposição” do mercado? Nataly Fernandes dos Santos, sócia da área tributária do escritório Barreto | Lamussi | Nunes Advogados, lembra que, em termos de agilidade na entrega, são muitas as dificuldades encontradas. Mesmo com o avanço que foi exigido pela situação de pandemia, o setor ainda enfrenta dificuldades com fatores alheios aos seus esforços, como a infraestrutura precária, que inclui o péssimo estado da malha rodoviária e zonas de risco em diversas áreas do país.

Além disso, a mão de obra é escassa em algumas regiões do país e os entregadores estão sendo altamente disputados entre as empresas do segmento. Outra dificuldade está na localização dos Centros de Distribuição, que nem sempre ficam próximos ao consumidor final e impactam o last mile.

Em relação aos custos, ainda segundo Nataly, estudos recentes apontam que o frete representa 2/3 dos custos da cadeia logística, grande parte disto decorrente do alto custo do combustível, especialmente o diesel.

Também para Eduardo Ghelere, diretor executivo da Ghelere Transportes, são vários problemas logísticos de infraestrutura. “Temos hoje muitas obras de melhoria de infraestrutura nas rodovias, mas, mesmo as que já são duplicadas, estão com gargalos. Quando você vai de São Paulo a Curitiba, de Curitiba para Santa Catarina, todos os contornos (Florianópolis) estão sempre congestionados. Precisamos melhorar o fluxo utilizando as tecnologias e exemplos de outros países, ainda temos muitos acessos com trevo no mesmo nível, onde deveria ser viaduto, trazendo insegurança e causando perda de velocidade da via. Cada vez temos mais carros e caminhões, mais tecnologia, mas temos rodovias ultrapassadas.”

Já segundo Anderson Ozawa, diretor da Aozawa Consultoria, um dos principais desafios é estabelecer um processo seguro e confiável que garanta um lead time adequado, principalmente no last mile. Segundo ele, nem sempre a falta de agilidade na entrega pode ser atribuída ao transporte em si. “A dificuldade na localização de itens dentro da operação de armazenamento – ruptura, extravio, alocação errada, entre outros – pode gerar atraso na separação, que tem um efeito em cadeia no processo de entrega.”

Em relação aos custos, Ozawa diz que um dos principais desafios é otimizar a malha logística, reduzindo etapas e homologando prestadores de serviços que atendam aos níveis de serviço exigidos pela empresa.

“A malha logística para as empresas brasileira ainda tem, como viés de decisão, o componente tributário. Logo, a entrega mais rápida, que deveria seguir por meio das menores distâncias percorridas, e a aproximação dos estoques aos clientes (polos consumidores) nem sempre são economicamente as mais viáveis para as empresas, mesmo que represente um frete mais elevado associado aos gastos com uma nova instalação – DGA – Despesas Gerias com Armazenagem”, completa Rodrigo de Castro Barros, sócio-diretor da Conexxionn Consulting.

Ainda com relação a esta questão, Antônio Carlos Morad, advogado especialista em direito tributário do escritório Morad Advocacia Empresarial, diz que as empresas que buscam maior agilidade na entrega e custos mais justos devem buscar locais estratégicos em seus Centros de Distribuição num raio de até 100 km do ponto inicial de onde está seu estoque de mercadorias comercializadas. “O custo para isso deve ser calculado de acordo com sua capacidade financeira, para tanto, como exemplo, um Centro de Distribuição compatível com o armazenamento e o estudo de fluxo e escoamento que não pode passar de um certo período de tempo.”

A análise de Alessandro Dessimoni, vice-presidente jurídico da Abralog – Associação Brasileira de Logística e sócio fundador da Dessimoni & Blanco Advogados, também vai pela ótica da localização, bem mais ampla. Segundo ele, o principal desafio, no pós-pandemia, é estar próximo aos maiores mercados consumidores do mundo. As empresas não querem mais depender única e exclusivamente da China como fornecedor global, e precisam desenvolver cadeias logísticas mais seguras e ágeis. Além disto, dentro do Brasil, diz Alessandro, concordando com seus parceiros nesta matéria, os maiores desafios são relacionados a temas tributários, infraestrutura e comodidade e rapidez na entrega.

Agilidade na entrega

Quando se pergunta porque o mercado passa a exigir agilidade na entrega a um custo mais justo, Ozawa, da Aozawa Consultoria, responde: toda a cadeia de abastecimento está com margens bem apertadas. Desde a indústria, os importadores, a concorrência com o mercado exterior – vide situações recentes de varejistas nacionais versus comércio eletrônico estrangeiro –, os distribuidores, entre outros. O comportamento do consumidor tem muito peso nesta exigência encadeada do mercado, seja por preço ou por ações que se tornaram frequentes, como frete grátis. No final, alguém paga essa conta, e não fica somente com a etapa antes do cliente, afeta toda a cadeia. “De fato, a cadeia de Supply Chain como um todo identificou que o custo de entrega para o B2B e/ou B2C é muito alto. E isto impacta margens e, ao impactar margens, faz com diversos players busquem alternativas de entrega com custo menor. Esta pressão faz a cadeia atual repensar o preço praticado”, completa Alessandro, da Abralog.

Nataly, do escritório Barreto | Lamussi | Nunes Advogados, também ressalta que atualmente existem plataformas de compra de fácil acesso, muito intuitivas e ágeis para finalização e entrega da compra. Hoje também boa parte do mercado consumidor se rendeu aos operadores externos, os quais entraram no mercado brasileiro de forma agressiva, muitas vezes operando com margens negativas para se manter no mercado brasileiro. Portanto, as empresas precisam superar os desafios de agilidade e menor custo na entrega para continuarem no mercado.

“Esse movimento (entrega mais rápida) já era uma tendência, mas a pandemia o acelerou ainda mais. Os clientes se acostumaram a receber em casa e substituíram idas às lojas físicas pela praticidade de uma entrega na residência”, acrescenta Barros, da Connexxion Consulting.

Também para Mariane Wiederkehr, CEO do Guarde Aqui, o consumidor quer receber os seus produtos cada vez mais rápido, e as empresas querem oferecer a melhor experiência de compra, então já vemos que existe uma corrida e uma disputa em ser o fornecedor mais rápido. “E é nesse momento que percebemos a importância do self storage funcionando como ponto importante à logística do ‘last mile’, ou seja, empresas que utilizam os espaços como local de apoio para a última etapa de estocagem dos produtos, antes da entrega ao cliente final.”

De fato, como lembra Antônio Carlos, do escritório Morad Advocacia Empresarial, a concorrência é selvagem, portanto, preço do produto + custo logístico + tempo de chegada do produto em seu ponto final fará uma óbvia diferença para a satisfação de seus clientes. 

Elementos a serem considerados

A revisão da malha de abastecimento tem como motivadores a redução dos gastos totais (logísticos, de produção e tributários) e a melhoria do atendimento aos clientes por meio da redução de prazos. Há de se considerar – ao consolidar a malha física de abastecimento e na hora de rever as redes de abastecimento – que o trade-off entre centralização e descentralização do abastecimento tem impacto direto no prazo de entrega, custo de capital empregado nos estoques, gastos com fretes, gastos tributários e custos das instalações. No entanto, continua Barros, da Connexxion Consulting, vale ressaltar que, apesar de as empresas terem avançado em conhecer melhor seu mercado, ainda não existe um consenso quanto à efetividade da conversão das vendas e ganho de market share com a redução dos prazos de atendimento.

Também respondendo às questões sobre os principais elementos considerados ao consolidar a malha física de abastecimento e quais os principais fatores que levam as organizações a reverem suas redes de abastecimento, Nataly, do escritório Barreto | Lamussi | Nunes Advogados, aponta que são basicamente os próprios custos da cadeia logística, regiões com novas demandas de clientes (mercado consumidor) e concorrência com logística mais eficiente. “Sãos vários elementos, mas os principais são: custos tributários, nível de serviço exigido pelos clientes, eficiência logística e custo logístico. A consolidação da malha física pode ser altamente impactada com a aprovação da reforma tributária”, complementa Alessandro, da Dessimoni & Blanco Advogados.

Basicamente estamos falando de frequência de entrega e distância, e as redes de abastecimento tendem a ficar mais perto dos consumidores. “As indústrias pós-Covid viram também a importância da logística de toda sua cadeia, revendo a estrutura de fornecedores, buscando alternativas em relação à distância e estoque” adianta Eduardo, da Ghelere Transportes.

Mariane, do Guarde Aqui, também pondera que, com uma otimização da cadeia, ambos os lados ganham, a empresa, que consegue se organizar, reduzir custos com estoques, distribuição, transporte, aumentar a produtividade e, por consequência, melhorar os prazos de entrega, gerando uma relação de satisfação e confiança com o consumidor final. 

“Como disse anteriormente, os custos devem ser estudados, avaliados com precisão e validados por todos os membros responsáveis por esse custo. Afinal, a empresa deve maximizar seus lucros com competências que devem ser consideradas, quais sejam, os melhores dos diferenciais do mercado”, completa Antônio Carlos, do escritório Morad Advocacia Empresarial.

Critérios e metodologias

A metodologia adequada para o projeto de malha logística é a otimização. Por se tratar de um problema complexo e com muitas variáveis, o uso de softwares de otimização especialista se torna o método mais adequado para desenvolver esse estudo. Há diversos softwares que permitem otimizar a malha logística e tratar complexidades de redução de custos e/ou melhoria no nível de serviço, mas nos últimos anos vem crescendo os aspectos de sustentabilidade e riscos. Redução da emissão dos Gases do Efeito Estufa (GEE), como o CO2, e gerar cenários alternativos prevendo mitigar os riscos de ruptura do abastecimento por causas especiais (não controláveis).

“Contudo – prossegue Barros, da Connexxion, falando sobre os alvos, critérios e metodologias de estudo ao revisar a malha logística, incluindo localizações de fornecedores e clientes –, por mais que a metodologia do projeto seja baseada na otimização, somente esta, resposta matemática, não é suficiente para encontrar a melhor solução, pois, o modelo de otimização é complexo e deve ser bem construído, representando todas as variáveis adequadas para o objetivo do estudo e de modo aderente, operacionalmente viável. Sendo assim, unir o método matemático à experiência do profissional especialista em desenhar a estratégia de operações é o caminho correto para a construção de malhas logísticas robustas e alinhadas à estratégia do negócio.”

Também com relação a esta questão, Eduardo, da Ghelere Transportes, destaca que aqui há um ponto delicado e crucial: se a tendência das empresas é ficar próxima do centro consumidor, para ter mais eficiência, então porque Extrema e Pouso Alegre, ambas cidades de Minas Gerais, têm tantos CDs?

“Porque no Brasil temos legislações diversas, dentre elas incentivos fiscais e o ICMS que tem um alto peso. No caso do critério é muito complexo, ele deve ser definido de acordo com cada indústria ou varejo/distribuidor. Pense que se temos uma indústria, o ICMS de 0 (incentivo fiscal), 12 ou 17% pode ser a diferença do lucro ou prejuízo. Citando aqui alguns casos de incentivo, podemos ver fornecedores de peças de ar-condicionado que se estabeleceram em Mato Grosso do Sul, com o inventivo de lá, e distribuindo para São Paulo, mas, veja, a mercadoria foi importada de Santos.” 

Ainda de acordo com Eduardo, há também o caso emblemático das motos Honda: suas peças são feitas no Sul e Sudeste, vão até Manaus, AM, e retornam posteriormente em caixas pré-montadas. “Se tirar estas distorções de mercado, podemos utilizar a metodologia MTM (methods time measurement) e é importante entender que a logística é vida, deve ser revisada constantemente, pois o cliente muda o pedido/perfil, os fornecedores são dinâmicos, enfim. O que é importante é que a solução seja personalizada de acordo com cada empresa, os critérios devem ser definidos de antemão, uma vez que para alguns o menor preço é importante, e para outros a velocidade na entrega, e eles andam na contramão dos custos”, completa o diretor executivo da Ghelere Transportes. Do ponto de vista tributário, e relacionado ao que foi dito anteriormente, é preciso considerar alguns fatores, como localização dos fornecedores, localização do embarcador, localização dos clientes e tipos de produtos que são comercializados. O principal – segundo Alessandro, da Abralog – é conhecer o base line tributário com a carga fiscal atual das companhias e nos estudos desenvolver cenários utilizados das oportunidades legais, como construção de nova matriz fiscal, incentivos fiscais, regimes especiais estaduais, projetos de lei que podem afetar a construção da estratégia, dentre outros.

“Sem dúvidas, fatores como custos, prazo/agilidade, demanda e localização são determinantes para revisar a malha logística de/por qualquer empresa que atue neste segmento”, completa Nataly, do escritório Barreto | Lamussi | Nunes Advogados.

Benefícios da revisão da malha logística

Quando se fala dos benefícios esperados da revisão da malha logística para as empresas e para os consumidores, Barros, da Connexxion Consulting, faz uma lista: redução dos prazos de atendimento, redução do custo de servir (cost to serve), redução do gasto logístico total, maximização dos lucros, redução da emissão de CO2, desenho de planos de contingência, captura de benefícios fiscais (ainda) existentes, construção de parcerias entre redes de abastecimento colaborativas e avaliação de potenciais sinergias entre malhas logísticas antes do M&A (Merger and Acquisition).

“Para as empresas, os principais benefícios são a melhora na eficiência operacional, otimização dos custos e maior controle do processo como um todo. Tudo isso deve gerar ao consumidor uma redução no tempo de entrega ou, no mínimo, o cumprimento do tempo de entrega compromissado. A depender da capacidade de propagação dos ganhos, pode gerar também um ganho perceptível no preço final do produto ofertado”, aponta, agora, Anderson, da Aozawa Consultoria.

Na verdade, como diz Nataly, do escritório Barreto | Lamussi | Nunes Advogados, o que se espera é reduzir os custos e prazos envolvidos, ganhar abrangência conquistando novas fatias do mercado consumidor, bem como possibilitar que o last mile se torne mais ágil e eficiente. “Certamente, o maior benefício é a dinamização do negócio em si. Aquele que se projetar antes de seus concorrentes sairá com larga margem e distância quanto ao rendimento que objetivar”, acrescenta Antônio Carlos, do escritório Morad Advocacia Empresarial.

Uma vez feito um bom trabalho, o consumidor sempre ganha de uma maneira ou outra. Hoje, segundo Eduardo, da Ghelere Transportes, temos no Brasil desafios enormes em um país com estas dimensões, mas ainda tem espaço para ganhos, entre eles a qualidade de entrega, melhoria do nível de serviço (entregas no horário que o consumidor quer, sem avarias, etc.). “O fato de cada vez mais o assunto estar em voga e sendo sempre rediscutido já apresenta ganho para os consumidores, pois as empresas o colocam no centro e têm ganhos, às vezes não redução de custo, mas em eficiência que, no final, reduz o valor do produto ou melhora algum benefício atrelado ao consumidor.” Finalizando esta questão, Alessandro, da Dessimoni & Blanco Advogados, ressalta que as empresas podem ter, como benefícios imediatos, redução de custos tributários e logísticos e/ou aumento de rentabilidade com o crescimento das margens. Para o consumidor pode haver ganhos em relação ao preço dos produtos adquiridos e aumento do nível de serviço com prazo de entrega e comodidades.

Equilíbrio das demandas

Sobre como as empresas podem equilibrar efetivamente as demandas do mercado com as restrições fiscais ao planejar suas redes de abastecimento, tanto Nataly, do escritório Barreto | Lamussi | Nunes Advogados, quanto Antônio Carlos, do escritório Morad Advocacia Empresarial, têm respostas parecidas: contar com um profissional especializado na área tributária.

Nataly destaca que, devido ao complexo ambiente tributário, que inclui volumetria de normas, atualizações legislativas dinâmicas, diferentes tipos de regimes (fiscais e especiais), atos normativos esparsos e, por vezes, conflitantes, é essencial que a empresa seja assistida por um expert da área tributária para desenvolver um novo modelo de negócio e/ou expandir/alterar estruturas de negócio existentes. “Com isto, a empresa consegue ter domínio dos procedimentos fiscais incidentes da operação, ter mais previsibilidade e/ou consegue mitigar eventuais riscos, além de poder definir uma estrutura que combine as necessidades de sua operação vs. otimização da carga tributária.”

Já Antônio Carlos diz que esses profissionais habilitados, em especial para o direito tributário, se competentes forem, quebrarão os tabus e vícios oriundos de informações e formulações errática. Elementos que podem prejudicar sobremaneira a empresa cliente.

Em resposta à mesma pergunta, Barros, da Connexxion Consulting, aponta que avaliar o melhor equilíbrio entre gastos e satisfação do cliente é o caminho mais adequado para tentar selecionar a estratégia. Cada empresa pode, inclusive, decidir qual estratégia deve ser adotada em cada região ou até mesmo por segmentação de mercado.

“Esta pergunta é simples, mas de uma complexidade extrema de resposta. Na verdade, temos uma cadeia tão complexa de alíquotas de acordo com cada produto e, aliadas a isso, as distâncias, não adianta eu comprar de um fornecedor de Manaus, se eu fico no Rio Grande do Sul. Temos muito que avançar com a política pública, acredito que a Reforma Tributária vem para reduzir essas distorções e melhorar o ambiente de negócios. Com um ambiente mais equilibrado, fica mais fácil tomar as decisões em detrimento de fato do que é valor para a companhia, e não tanto quanto ao peso fiscal do ICMS”, aponta Eduardo, da Ghelere Transportes.

Alessandro, da Dessimoni & Blanco Advogados, também faz sua análise por este caminho. Segundo ele, “o Brasil sempre apresentou ótimas oportunidades tributárias, mas este ano de 2023 tem sido desafiador, haja vista a sede arrecadadora do novo governo. As restrições fiscais aumentaram, e o custo fiscal também pode aumentar. Para se ter uma ideia, o STF julgou, no primeiro semestre, 12 causas tributárias, sendo que 8 foram desfavoráveis aos contribuintes. Além dos inúmeros projetos de Lei e Medidas Provisórias que visam aumentar a arrecadação de impostos. Para enfrentar estes desafios, as empresas têm que entender o impacto fiscal para seu negócio e planejar novos cenários tributários.”

Encargos tributários

Já que se falou em encargos tributários no Brasil, vamos ver como eles impactam as operações logísticas das empresas e quais são os desafios específicos enfrentados, segundo os nossos entrevistados.

Como se sabe, o sistema tributário brasileiro é muito complexo e a carga tributária atual uma das maiores do mundo. Além da alta carga tributária incidente sobre as operações praticadas – prossegue Nataly, do escritório Barreto | Lamussi | Nunes Advogados –, as empresas ainda são oneradas pela necessidade de terem departamentos fiscais internos ou por terem que contratar terceiros para viabilizar o cumprimento das obrigações tributárias acessórias. Não bastasse isso, a legislação atual é complexa e não acompanha a velocidade da evolução dos negócios, de forma que, muitas operações ainda carecem de um respaldo legal efetivo. Como exemplo, podemos citar a ausência de procedimentos fiscais específicos para as operações de logística reversa, bem como para os serviços prestados pelos operadores logísticos.

Para Alessandro, da Dessimoni & Blanco Advogados, tanto os encargos tributários quanto a burocracia fiscal impactam muito os negócios no Brasil. Do ponto de vista logístico, há grandes dificuldades, principalmente para a empresa que opera em diversos municípios e estados. Já que tem que lidar com aproximadamente 5.500 leis locais e 27 legislações estaduais.

Também na visão de Barros, da Connexxion Consulting, atualmente, o ICMS é o tributo que mais impacta na logística das empresas. Há diferentes alíquotas e incentivos concedidos para cada setor empresarial em cada Estado. Dessa forma, as empresas tendem a localizar suas instalações onde é possível obter benefícios fiscais para atingirem uma maior competitividade. No entanto, esse foco custo-eficiente tem sido questionado, dado que os clientes estão demandando menor prazo de entrega.

Nesse tipo de operação, o ICMS acaba sendo um divisor de águas, pois cada Unidade Federativa possui legislação própria e alguns conferem benefícios fiscais para que empresas se instalem em seus territórios, o que torna de suma importância a averiguação da carga tributária e possíveis benefícios fiscais no momento de definir o local para desenvolvimento da operação de logística. O maior desafio é encontrar o equilíbrio entre o ganho em agilidade e abrangência territorial, em consonância com a melhor eficácia tributária possível”, completa Eduardo Rodrigues Melhado Junior, sócio Tributário e Fiscal da Duarte Tonetti Advogados.

Antônio Carlos, do escritório Morad Advocacia Empresarial, também pondera que o grande desafio é o tributo, portanto, “com o governo atual já temos uma luz no final do túnel, a reestruturação do ICMS.

Pelo seu lado, Eduardo, da Ghelere Transportes, destaca que os impactos são maiores nas mercadorias, e não nas operações de transporte, sendo assim, eles são determinantes de origem/destino. “Pensando em empresas muito competitivas (mercado de alimentos e bebidas), você tem incentivos em alguns estados e só faz sentido a instalação da planta em razão deste incentivo. E ele é tão grande que distorce o mercado por anos. Encerrando este incentivo, e não se renova, a planta fabril tende a ir para outro estado. Ainda temos questões de estados com incentivos como Santa Catarina e Espírito Santo, onde os importadores menores têm preferência devido ao ganho de ICMS na operação, então, independente da sede da empresa, a preferência pela importação se dá nestes estados – pense em uma empresa do Paraná, São Paulo ou Rio Grande do Sul, importando por Santa Catarina.”

Impactos dos encargos tributários

Quando falamos em competitividade e rentabilidade, aliados ao aspecto tributário, temos que lembrar que, como já foi dito, na atual sistemática tributária, são concedidos diversos benefícios fiscais de ICMS pelos estados. Assim, hoje, a escolha da localização de um Centro de Distribuição depende, quase que exclusivamente, das condições tributárias que o estado irá oferecer para a empresa. A obtenção de um incentivo de ICMS é tão relevante que, ainda que estabelecida em uma localidade distante dos seus principais mercados consumidores, uma empresa beneficiada acaba sendo muito mais competitiva no mercado e, consequentemente, consegue atingir melhores resultados.

“Com a aprovação da reforma tributária e a unificação dos impostos, o cenário de guerra fiscal entre os estados tende a mudar gradativamente. Como resultado, é provável que tenhamos estruturas e pontos de distribuição mais próximos do cliente final, gerando agilidade e diminuição dos prazos de entrega”, diz Nataly, do escritório Barreto | Lamussi | Nunes Advogados, falando sobre os impactos dos encargos tributários brasileiros sobre a competitividade e a rentabilidade das empresas que atuam na logística.

Barros, da Connexxion Consulting, lembra que o ICMS é um tributo estadual e a concessão de benefícios é facultada ao CONFAZ – Conselho Fazendário, sendo assim, a rentabilidade das empresas pode ser fortemente impactada caso haja a concessão de algum benefício. No entanto, há de ponderar o perfil e requisitos dos clientes. Alguns setores não requerem prazos de entrega muito curtos, já outros podem demandar entregas rápidas, inclusive no mesmo dia.

“No âmbito federal, o cenário é um pouco mais amigável, pois a regra serve para todos as Unidades Federativas, o que simplifica a operação. Contudo, o ponto nevrálgico é relativo ao ICMS nas operações intermunicipais e interestaduais, sendo prudente o conhecimento profundo da legislação do ICMS para aproveitar eventuais benefícios e não incorrer no pagamento a maior do tributo em questão”, lembra Melhado Junior, da Duarte Tonetti Advogados.

De fato, como destaca Eduardo, da Ghelere Transportes, atualmente são diversas as alíquotas e de difícil compreensão – “veja que temos 12% de ICMS de São Paulo para Bahia, e da Bahia para São Paulo 12%, ou mesmo que um frete dentro do Estado do Paraná (Curitiba x Ponta Grossa) é isento de ICMS, e já de São Paulo x Campinas incide 12% de ICMS. Talvez o maior problema ainda seja a complexidade e dificuldade, e não apenas a alíquota”.

Vale destacar que, como diz Antônio Carlos, do escritório Morad Advocacia Empresarial, estudos demonstram que existe uma falta de análises mais aprofundadas sobre o manejo das cargas tributárias referentes. Cada segmento detém sua carga tributária e deve ser colocada em pautas com explanação e esclarecimentos para seus contratantes que, por sua vez, deverão com seus CFOs colocar em prática a melhor forma de atuação no mercado.

“Eu diria que a falta de planejamento tributário compromete o lucro e crescimento das empresas de logística, bem como reduz a competitividade. Isto porque, o sistema fiscal é tão complexo que esta dificuldade impõe restrições de todas as ordens e gera um potencial passivo e contingências para as empresas. Além do que, há uma certa concorrência, pois, as empresas mais preparadas e bem assessoradas conseguem competir em condições melhores”, completa Alessandro, da Abralog.

Simplificando o sistema tributário

Quanto às medidas e às propostas para simplificar e harmonizar o sistema tributário brasileiro para o setor logístico, as respostas dos nossos entrevistados são amplas e claras.

Para começar, vale lembrar que após mais de 30 anos de discussão, em julho deste ano a Câmara dos Deputados aprovou a proposta de emenda à Constituição (PEC nº 45), que trata da reforma tributária e reformula a tributação sobre o consumo.

De forma geral, a reforma visa: i. simplificar o sistema, por meio da redução e unificação dos tributos; ii. tornar o sistema transparente, de forma a ser de compreensível por todos (população e investidores) e, iii. estimular a economia, pois com um sistema simplificado, a expectativa é atrair mais investimentos e crescimento econômico.

“A reforma proposta não trouxe em seu bojo especificidades aplicáveis ao setor logístico. A nosso ver, o texto atual traz vantagens e desvantagens ao segmento. Se, por um lado, a reforma otimizará sobremaneira os custos para o cumprimento das obrigações fiscais e o sistema passa a ser tido como mais justo, já que objetiva acabar com a tributação em cascata e fixar o crédito fiscal em bases amplas, por outro lado, a reforma também traz inúmeras preocupações às empresas do setor.”

Nataly, do escritório Barreto | Lamussi | Nunes Advogados, continua sua análise, destacando que, por hora, não há clareza sobre o percentual da alíquota básica do IVA – Imposto sobre Valor Agregado, bem como sobre a sistemática dos créditos. Ademais, é preciso ponderar que, atualmente, a prestação de serviços no Brasil está amparada com uma carga tributária muito menor do que a que recai sobre as indústrias e os comércios. “Ao unificar os tributos e equilibrar a carga entre todos os diversos tipos de atividades, não há dúvidas que o setor dos serviços será afetado com um aumento significativo da carga tributária. Também já se sabe que o imposto seletivo que será criado recairá sobre os combustíveis fósseis e impactos ambientais, o que também passa a ser um novo ônus financeiro sobre a cadeia logística.”

Por fim, continua Nataly, com exceção dos benefícios de ICMS concedidos anteriormente, que permanecerão válidos até 2032, diversos outros incentivos da cadeia serão extintos, como o crédito presumido de ICMS previsto no Convênio ICMS nº 106/1996 e incentivos fiscais federais, incluindo o REIDI (Regime Especial de Incentivos para o Desenvolvimento da Infraestrutura) e o REPORTO (Regime Tributário para Incentivo à Modernização e à Ampliação da Estrutura Portuária).

Já Barros, da Connexxion Consulting, ressalta que, em resumo, a reforma tributária pauta a unificação dos impostos no modelo de IVA Dual, criando dois impostos, com não cumulatividade na cadeia: CBS, Contribuição para Bens e Serviços, em substituição aos impostos federais PIS, COFINS e IPI; e IBS, Imposto sobre Bens e Serviços, em substituição ao ICMS (estadual) e o ISS (municipal).

Unificando os impostos entre os entes da federação, os atrativos para empresas se localizarem distantes de grandes centros urbanos podem não ser mais suficientes, visto que o frete last mile (frete de última milha, para entrega ao cliente) costuma ser mais oneroso que o frete de transferência (entre Centros de Distribuição ou da Fábrica para um Centro de Distribuição).

“Dessa forma – continua o sócio-diretor da Connexxion Consulting –, ao apresentar a padronização das alíquotas, independentemente do Estado onde está localizada, é possível que haja um novo movimento de migração das empresas, posicionando suas instalações industriais e logísticas próximas aos locais de consumo, com tendência a um número maior de instalações para racionalização dos gastos com fretes, o que chamamos de descentralização. Naturalmente, os clientes terão uma melhor disponibilidade dos produtos, pela rápida reposição das lojas físicas e a redução dos prazos de entrega.”

Melhado Junior, da Duarte Tonetti Advogados, entende que, além do conhecimento profundo da legislação tributária para aproveitamento dos benefícios, a revisão fiscal periódica pode ser um grande aliado para que as empresas do segmento de logística não realizem pagamento a maior dos tributos gerados na operação, bem como possam recuperar créditos oriundos de insumos utilizados na operação. Nessa linha, o olhar para dentro da operação é muito importante, evitando gargalos que consomem a rentabilidade da companhia. “Com efeito, vale lembrar que temos alteração da legislação diariamente, alteração de entendimentos doutrinários e jurisprudenciais, o que, além de criar um cenário caótico, pode gerar oportunidades de boas discussões jurídicas e recuperações de créditos tributários.”

Pelo seu lado, Eduardo, da Ghelere Transportes, espera que a reforma tributária inicie com essa questão de simplificação e harmonia, “não vejo redução neste momento, mas se conseguirmos avançar para reduzir a quantidade de impostos e simplificar sem cálculo, já vamos ter um avanço. Hoje temos problemas de interpretação, como o fisco do Estado de São Paulo não aceitar crédito de pneus, que é um insumo direto e indispensável. Precisamos discutir este tipo de coisa, como o Pedágio fazer ou não a composição da base de cálculo do imposto, novamente tem estados que sim e estados que não. Nós, do setor, já estamos acostumados com essa loucura, mas isso precisa parar. Precisamos de uma regra clara de insumos, precisamos de uma regra única de imposto sobre operações estaduais ou interestaduais”.

O diretor executivo da Ghelere Transportes tem a percepção que o aumento da carga tributária no segmento ficou fora da realidade e vai trazer muito desgaste e enfraquecimento de um setor vital para a economia do país. De fato, como discorre Alessandro, da Dessimoni & Blanco Advogados, atualmente temos discutido a reforma tributária, mas do ponto de vista de carga tributária é muito prejudicial ao segmento de logística. Segundo ele, irá aumentar a carga fiscal das empresas. E a tão almejada simplificação talvez não venha da forma que o governo divulga. Isto porque estamos considerando extinguir 5 tributos, mas criando 4 novos. “Há que se repensar em primeiro lugar em uma forma de reduzir as obrigações acessórias, reduzir as multas exorbitantes que são muito maiores que o próprio imposto devido, bem como juntar impostos como PIS e COFINS, dentre outras medidas. Com esta reforma, o governo está beneficiando industrias e o sistema financeiro em detrimento do comércio e serviços.”

E Antônio Carlos, do escritório Morad Advocacia Empresarial, pondera, dizendo que a nova regulamentação tributária que estará sendo posta em prática deverá ser analisada e comparada com a atual carga tributária praticada pelas empresas de logística brasileiras. Um ponto pacífico e elementar para que essas empresas não sejam pegas despreparadas quando do início das mudanças.

CDs e condomínios logísticos

Neste contexto todo, como a otimização de Centros de Distribuição, condomínios logísticos e fábricas pode contribuir para uma melhor malha logística?

Na visão de Anderson, da Aozawa Consultoria, esta otimização traz uma série de benefícios para a malha logística. Quando existe uma concentração de Centros de Distribuição em condomínios logísticos, que geralmente ocorre em locais estratégicos próximos às principais rodovias e que, via de regra, deve ter também uma estratégia de alocação de empresas similares em atuação ou característica logística, esses pontos favorecem toda a cadeia, que passa a planejar de forma adequada suas rotas de entrega, por exemplo, que em uma perspectiva macro, deveria reduzir gradualmente custos e aumentar consideravelmente o desempenho operacional. Otimizar Centros de Distribuição para modelos mais atuais – cross docking, por exemplo – garante maior agilidade no processo de recebimento, uma vez que em modelos antigos, uma entrega pode ficar horas e horas esperando para ser atendida, por limitação de docas, espaço físico, entre outros.

Também para Nataly, do escritório Barreto | Lamussi | Nunes Advogados, Centros de distribuição bem localizados representam redução de tempo e custo na logística entre os CDs e aos consumidores finais. “É interessante que os Centros de Distribuição estejam próximos a rodovias para otimizar a malha de transferência. Já no que se refere ao last mile, o cenário é o oposto, já que pontos de distribuição próximos ao consumidor reduzem sobremaneira a distância e os prazos de entrega. Neste contexto, também seria interessante afastar as restrições de tráfego por vezes impostas nas grandes metrópoles para possibilitar entregas por meios mais sustentáveis, por exemplo, utilizando bicicletas.”

Também Eduardo, da Ghelere Transportes, vê como muito positiva esta otimização, pois, conforme diz, “quanto mais conseguimos ter processos simples, separação de mercadorias mais rápida, vamos ter eficiência e tudo melhora. Ainda podemos melhorar muito, temos muitas fabricantes multinacionais grandes, que têm um tempo de carregamento de 1 hora na sua matriz nos Estados Unidos e 6 horas aqui no Brasil – só neste exemplo podemos entender o quanto é possível evoluir. Aqui temos empresas que faturam bilhões e continuam com filas e grades de carregamento lentas, processos antigos de separação de mercadoria, muita coisa manual, que poderia ser melhorada. Este investimento, no meu entendimento, sempre tem retorno certo. Sistema de gestão e tecnologia para esta área é o que não falta, a questão é estudar o que precisa de acordo com cada caso”.

Sob outra visão, Barros, da Connexxion Consulting, pondera que, por meio da otimização é possível encontrar a estratégia de localização mais adequada para a empresa, inclusive na vocação de cada instalação, incluindo tamanho, perfil de operação entre outros. Através do desenho ideal da orquestração dos recursos para que a estratégia do negócio seja o foco de qualquer decisão oriunda do redesenho das redes de distribuição.

Também Antônio Carlos, do escritório Morad Advocacia Empresarial, tem uma visão diferenciada: nesse caso, segundo ele, a administração pública poderia contribuir em muito, regulando zoneamentos dos setores de cada modalidade de mercado e estimulando uma cadeia de aproximação entre todos os negócios interligados. Como exemplo, polo petroquímico de Camaçari em primeiro destaque, expandido para o polo industrial de Camaçari e uma expansão final para serviços e setores de manutenção.

E Alessandro, da Dessimoni & Blanco Advogados, ressalta que, do ponto de vista tributário, a otimização pode reduzir obrigações acessórias, reduzir pessoas de departamentos do back office e fortalecer ganhos/incentivos fiscais em determinado município ou estado, já que a empresa irá consolidar as suas operações em um só local ou poucos locais, reforçando seu relacionamento com o fisco local, aumentando sua arrecadação e, portanto, tendo a oportunidade e contrapartidas legais.

Usando sua experiência de trabalhar com o self storage, Mariane, do Guarde Aqui, destaca que, em um cenário altamente competitivo, fazer com que a marca se destaque diante da concorrência é um desafio. Para atrair a atenção do consumidor é preciso investir em diferenciais, como a qualidade do produto, um atendimento diferenciado e o cumprimento dos prazos de entrega. Uma entrega bem-feita e dentro do prazo estipulado pode fazer com que o cliente se sinta valorizado pela loja. “É na última milha que os consumidores ficam ansiosos enquanto aguardam o recebimento do produto desejado. Podemos dar como exemplo, a importância do self storage nesse momento.” 

Desafios

Por outro lado, quais são os desafios e as oportunidades para o desenvolvimento de Centros de Distribuição, condomínios logísticos e fábricas no Brasil?

Na opinião de Anderson, da Aozawa Consultoria, eles estão relacionados a encontrar locais estratégicos e com viabilidade estrutural e financeira para desenvolvimento. Ter a malha rodoviária como única opção viável para desdobramento do processo de logística causa uma grande limitação.

“Quando falamos de oportunidades, quanto mais Centros de Distribuição e condomínios logísticos espalhados e que possam atender regionalmente as operações, maior a eficiência operacional e uma consequente redução dos custos que, mais uma vez, são encadeados dentro do processo. Nosso país é enorme e quando pensamos em uma distribuição a partir da região Sudeste para atender a região Norte, os custos são altíssimos, seja por modal rodoviário e, pior ainda, no modal aéreo. Dado isso, investir no desenvolvimento destas operações para atender regionalmente as necessidades é uma grande vantagem competitiva para os negócios.”

Eduardo, da Ghelere Transportes, também lembra que os desafios são, em sua maioria, devido à dinâmica do país. Temos um centro consumidor muito forte em São Paulo e Rio de Janeiro, muitas indústrias na Capital de São Paulo, de modo que, sozinha, a região Sudeste é a que mais concentra os centros logísticos do país.

“Analisando a Grande São Paulo, é ali que temos os melhores centros e os maiores desafios. Ainda existe um caminho a ser percorrido no interior do país (se quiser entrega mais eficiente, é necessário deixar o estoque mais próximo) e ainda tem muito desenvolvimento a ser feito, principalmente no Norte e Nordeste do país. Se tratarmos da integração do Mercosul, temos desafios ainda maiores em regiões como Mato Grosso do Sul”, acrescenta o diretor executivo da Ghelere Transportes. Nataly, do escritório Barreto | Lamussi | Nunes Advogados, também se volta para a questão da infraestrutura. Além disso, os custos com terrenos e construção em localizações mais próximas dos centros das cidades é alto. Consequentemente, há um gargalo no last mile no país, porquanto ainda faltam pequenos Centros de Distribuição mais próximos dos centros.

Sobre as oportunidades, Nataly lembra que, com a pandemia, o e-commerce passou a ser um dos principais meios de compra e venda. O modelo continua expandindo no país, de forma que há demanda reprimida e espaço para expansão das operações e construção de novos galpões pelas empresas deste ramo. As frotas atuais estão defasadas, ao mesmo tempo que a malha aérea não é muito explorada no país, posto que as operações ocorrem, predominantemente, via malha rodoviária, seguida da ferroviária. “Portanto, a nosso ver, este meio de transporte pode ser uma alternativa a ser explorada.”

O Plano Nacional de Logística (PNL 2035) anunciado pelo governo atual prevê um aumento de aproximadamente 40% de transporte por trilhos nos próximos anos, o que significa que o governo pretende investir, e isto é uma boa notícia para o segmento, completa Nataly.

Falando sob a ótica de self storage, Mariane, do Guarde Aqui, aponta a malha logística como o grande desafio. “Nesse cenário, percebemos que a presença de self storages próximos ao consumidor final traz muitos benefícios e oportunidades a essas empresas, sendo fundamental para a etapa mais complexa, que é a última milha.”

Em uma análise diferenciada e, como ele mesmo diz, respondendo do final para o começo, Antônio Carlos, do escritório Morad Advocacia Empresarial, considera o mais importante a reativação da indústria nacional, sendo pequenas, média e/ou grandes empresas, com auxílio de bancos de desenvolvimento e ligadas a auditorias que deverão prestar contas, periodicamente, sobre os auxílios diferenciados dessas instituições públicas de fomento ao empresariado. “Portanto, isso também será válido para os centros logísticos e de transportes.” 

Em uma visão também diferente dos demais participantes desta matéria, Alessandro, da Abralog, relata que o principal desafio é tributário, relacionado à segurança jurídica, pois as leis mudam constantemente no Brasil e, portanto, planejar investimentos em determinadas localidades pode ser um risco.

Tecnologia e automação

Ainda há a questão da tecnologia e da automação. Como elas estão influenciando a revisão da malha logística?

Positivamente, na visão de Anderson, da Aozawa Consultoria. “Quando falamos de processos simples, como esteiras gravitacionais, a depender do tipo de negócio, pode gerar um retorno em eficiência sem precedentes, quando comparado com um colaborador que tem que deslocar-se dentro da operação para transportar internamente um item. Ao observamos o avanço em automação com a utilização de separação automatizada, esteiras mecânicas que deslocam os itens separados para suas rotas através da leitura do código de barras, entre outros, tudo contribui no contexto da malha logística. É sempre importante lembrar que a malha logística tem fatores internos – operação do Centro de Distribuição ou indústria – e externos – transportes, modais, etc.”

Em uma resposta também relativa a um dispositivo dentro dos processos logísticos, Gil Carneiro, especialista de produto da ValeCard, diz que, em um cenário em que agilidade na entrega e controle de custos são cruciais, o roteirizador é um exemplo de como a tecnologia está sendo usada para otimizar atividades de transporte de cargas e logística. “Como o próprio nome sugere, esse software visa melhorar o planejamento e a execução das rotas, permitindo às empresas delimitar trajetos mais eficientes e seguros, considerando as localizações de fornecedores e clientes, além de informações sobre custos, como combustíveis, e disponibilidade de recursos. Dessa maneira, permite aos usuários a tomada de decisões rápidas, bem embasadas e assertivas.”

Também para Nataly, do escritório Barreto | Lamussi | Nunes Advogados, o uso de tecnologia e IA otimiza toda a cadeia logística, na medida em que os sistemas auxiliam nas atividades como o armazenamento, na gestão do pátio e no transporte.

Atualmente existem ferramentas que possibilitam a automatização do picking, a gestão do pátio com agendamento de docas, movimentação de veículos e motoristas, o reaproveitamento de espaços mal utilizados, o despacho e conferência de documentos, o rastreio de encomendas em tempo real, a geração de relatórios e métricas que auxiliam nos controles necessários.

Apesar do investimento necessário e que nem sempre pode ser suportado pela empresa de plano, isto tudo confere inúmeros benefícios para as atividades logísticas, como diminuição do tempo de análise do custo/benefício, aumento da assertividade dos pontos de distribuição, e otimização de rotas e vendas, etc., avalia Nataly.

O crescimento da omnicanalidade trouxe um novo componente para a logística. Por exemplo, diz Barros, da Connexxion Consulting, atualmente, o modelo de prateleira infinita, onde a loja física pode vender um produto que está em outra loja ou a partir do Centro de Distribuição, há também modelos de drop-shipping, marketplace que permitem que o cliente tenha acesso a produtos antes restritos à estratégia de abastecimento definida para aquela loja. Portanto, o desenho da malha logística deve considerar as novas modalidades de compra e entrega. Pensar em uma malha mais flexível e capilar tem sido o desafio para o gestor de logística.

Todos os dias estamos sendo impactados, desde uma mudança de rota para uma mais longa, porém mais rápida, devido a um acidente, acontecendo em tempo real, até a separação de mercadorias sem erro humano. Assim, diz Eduardo, da Ghelere Transportes, estamos andando bem dentro das inovações tecnológicas, revisitando os temas e aprendendo com o mercado global.

“A logística tem por característica ser singular no Brasil (é pouco comparável com a de outros países) mas, os sistemas que temos aqui são muito bons, hoje certamente somos líderes em relação ao rastreamento e segurança de cargas, temos os mais modernos hardwares neste sentido sendo fabricados localmente. Temos uma bagunça fiscal e regulatória que em nenhum outro país do mundo é comparável, como obrigatoriedade de pagamento de autônomo (CIOT), obrigatoriedade de Vale Pedágio, Manifesto de Carga (além dos documentos de transporte). O que precisamos é de liberdade de escolha e desregulamentação, precisamos de mais liberdade”, desabafa o diretor executivo da Ghelere Transportes Na visão de Mariane, do Guarde Aqui, a automação dos processos promove mais agilidade e aumento da produtividade, e por consequência, a redução dos custos. Com o uso da tecnologia e o monitoramento de dados, empresas estão conseguindo reduzir perdas, se relacionar melhor com parceiros e aumentar a competitividade. “Toda a forma de modernização pode gerar economias facilmente sentidas pelo caixa da empresa. Obviamente, a tecnologia e automação, somadas às novas inteligências artificiais, trarão uma sólida mudança para todas as empresas”, complementa Antônio Carlos, do escritório Morad Advocacia Empresarial. Também para Alessandro, da Dessimoni & Blanco Advogados, tecnologia e automação estão tornando mais eficiente a formação de cargas e as rotas, mas principalmente ajudando nas estratégias colaborativas entre fornecedores, prestadores, operadores e cliente.

Sustentabilidade ambiental

Na revisão da malha logística, também há a questão de como isto pode contribuir para a redução das emissões de carbono e o aumento da sustentabilidade ambiental.

A contribuição ocorre devido às novas implementações que encurtam o processo, sejam internamente ou externamente. Quando uma revisão da malha logística implica em desenvolver novos pontos de armazenagem/distribuição de acordo com as demandas comerciais e/ou estratégias de crescimento, consequentemente existe um encurtamento das rotas de entrega, o que pode, inclusive, gerar a possibilidade da utilização de veículos elétricos para entrega. A revisão dos processos internos, que trazem maior eficiência, também leva a turnos de trabalhos otimizados, redução no retrabalho, entre outros, enumera Anderson, da Aozawa Consultoria. “Este ganho é direto, sempre que acontece a melhoria, a redução da pegada de carbono vem junto, ainda podemos melhorar as medições e, como consumidores, cobrar mais consciência por parte das empresas”, acrescenta Eduardo, da Ghelere Transportes.

Neste contexto, a revisão dos veículos utilizados pelas empresas, aumento dos veículos elétricos, gestão eficiente da frota para otimizar as rotas e reduzir o número de veículos em circulação, utilização do self storage ou outros recursos como ponto de last mile, são ações que podem contribuir para a redução das emissões de gases poluentes na atmosfera e para a melhoria da qualidade do ar, sob a ótica de Mariane, do Guarde Aqui. Afinal, como aponta Alessandro, da Dessimoni & Blanco Advogados, com rotas mais eficientes e a logística de retorno dos caminhos mais colaborativas, os veículos podem voltar carregados e, assim, contribuir para reduzir as viagens e, portanto, as emissões.

Em tempos de ESG, Nataly, do escritório Barreto | Lamussi | Nunes Advogados, acredita que toda empresa deve usar de seus melhores esforços para contribuir com a sustentabilidade e reduzir impactos negativos ao meio ambiente. “Inegavelmente, a pandemia mudou o comportamento do consumidor, havendo um crescimento expressivo das operações de e-commerce. Neste contexto, o uso de insumos da cadeia também aumenta, então cumpre às empresas rever suas práticas, sendo uma das mais importantes a redução da emissão de CO2. Para tanto, devem ser instituídas metas de eficiência energética, com a redução e substituição de combustíveis nocivos por biocombustíveis, veículos elétricos, híbridos, etc.”

O objetivo de redução de emissão de CO2 tem sido um componente bastante abordado nas revisões de malha logística, sobretudo em empresas de capital aberto e multinacionais. Por meio da otimização da malha logística, diz Barros, da Connexxion Consulting, é possível redesenhar as operações para que a redução das distâncias impacte a emissão do CO2 sem prejudicar o custo de operação e o prazo de entrega. Soluções que atendam aos objetivos de redução de gastos, redução do prazo de entrega e redução de CO2, por vezes, têm sido possíveis por meio de um bom projeto que agrega metodologia robusta e expertise em estratégia de operações.

Casos de sucesso

Para finalizar, vale apontar casos de sucesso de empresas que realizaram a revisão da malha logística e obtiveram resultados positivos.

Anderson, da Aozawa Consultoria, cita a RD (Droga Raia e Drogasil), que atualmente possui 12 CDs espalhados pelo Brasil e, de acordo com última apresentação de resultados do 2T23 (disponível no site de RI da companhia), tem previsão de mais dois CDs para o futuro, para atender mais de 2.800 pontos de venda. Outro caso é o da Lojas Renner, com quatro CDs, sendo três automatizados para atender 655 lojas em todo o Brasil, sendo que, segundo a última apresentação de resultados do 2T23 (disponível no site de RI da companhia), seu novo CD vai gerar menor custo operacional, devido à maior produtividade no processamento, maior eficiência do frete digital, menor lead time e maior giro, com a simplificação da malha e maior precisão, menor ruptura e markdown.

Já Nataly, do escritório Barreto | Lamussi | Nunes Advogados, lembra que o Mercado Livre revisou sua malha e verticalizou boa parte da sua operação, o que significa dizer que eles mesmos passaram a fazer toda a cadeia logística (fulfillment), incluindo o transporte próprio. De acordo com relatos dos executivos do Mercado Livre para a mídia, a empresa hoje possui a maior velocidade logística do mercado, com entregas de 80% em até 48 horas, e na média Brasil 51% em até um dia. “Consigo vislumbrar várias empresas, entre elas reputo a Mercado Livre e sua alta capacidade de nunca exceder o tempo pelo qual se compromete a entregar a mercadoria para seu cliente final. Esse exemplo não fica por aí, existem inúmeros outros exemplos a serem elencados e comentados com vastidão”, complementa Antônio Carlos, do escritório Morad Advocacia Empresarial.

Sem citar nomes, Eduardo, da Ghelere Transportes, relata que atendem grandes clientes no segmento de alimentos que fazem anualmente a revisão da malha, alterando até alguns produtos para serem produzidos em outras plantas que, às vezes, nem são próprias. “O mérito da realização da revisão da malha está relacionado a refletir sobre os ganhos para empresa, não só financeiros, mas de tempos, processos e movimentos. Toda vez que nos debruçamos sobre os problemas, as perguntas tendem a trazer reflexões e virá algum resultado positivo como consequência.”

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